30 de abr de 2009

Planejamento e execução

Miranda chama seus subordinados imediatos para que estes passem o plano que ele, cheio de satisfação e orgulho, havia planejado. A ordem expressa a todos os coordenadores regionais era de aumentar as ocupações das praças públicas com a pregação do evangelho, misturando com os transeuntes e expectadores elementos do grupo, para garantir testemunhos favoráveis para a conversão e eventualmente realizar cenas forjadas, de cura e exorcismo, para impressionar a platéia.
Aos comandantes dos destacamentos do Exército do Cordeiro era para aumentar o rigor da vigilância, coibir, censurar espetáculos ou obras de arte e promover manifestações com o uso de violência, se necessária. Ele deixava bem claro a seus colaboradores eventuais, que deveriam mais que antes garantir a implementação de templos da organização em suas cidades, banindo, expulsando, dificultando ou impedindo o trabalho das concorrentes, mais uma ajuda extra da guarda municipal ao Exército do Cordeiro para reprimir as outras manifestações religiosas.
Ele passou aos advogados da Comunidade que os juízes deveriam atrasar, desviar ou reter os ofícios em quaisquer ações que tivessem, contra a organização, pois as virtudes da magistratura estavam em risco, bem como os planos de carreira de cada um.
Ele transmitiu por seus contadores a todos os fornecedores e fiscais da receita que a renda de cada um estava garantida se estes cooperassem no sigilo e no trânsito de bens, sem indícios ou reclamações.
Ele pessoalmente conversou com todos os distritos policiais e seus delegados para que cada unidade e destacamento aliviassem qualquer suspeita, inquérito, vigilância ou diligência que envolvesse a organização. Com os pastores de outras denominações evangélicas ele foi generoso ao mostrar os cálculos estatísticos demonstrando o quanto iam ganhar se incorporassem suas igrejas com a Comunidade, mas caso demonstrassem incerteza ou dúvida, ele pôde demonstrar com seu contato com o submundo o que estes podiam perder, com tal resistência.
Ele ofereceu grandes investimentos a cientistas que ajudassem a comprovar a veracidade da bíblia ou auxiliassem a dar um embasamento científico ao cristianismo. Ele ofereceu grandes produções, filmes, obras e honrarias aos artistas simpatizantes, bem como maiores lucros aos agentes de comunicação, editoras e emissoras se garantissem maior espaço de veiculação aos programas da Comunidade ou dessem aval aos valores cristãos.
Por mais diversificada e multifacetada que seja a sociedade de um país, cada setor se dispõe a colaborar com um projeto quando acreditam que receberão vantagens financeiras ou reverências públicas. Miranda conta com tal cupidez individualista mais o bem sucedido programa de condicionamento mental produzido pelo mito cristão para que seu plano funcione com perfeição, evitando qualquer obstáculo ou resistência. Não faltavam paranóicos, neuróticos, invejosos e complexados bons cristãos, para denunciar qualquer suspeito ou desvio de conduta. Ele estava feliz, radiante e exultante, em questão de dias teria todos os integrantes do CR em mãos para julgá-los e puni-los como ele tiver vontade.
Rosângela tinha igual trabalho, animando e encorajando os bruxos, oferecendo palavras de vigor e confiança aos artistas e cientistas apaixonados por suas profissões, levantando e organizando a comunidade de cidadãos para cobrar e vigiar as autoridades constituídas, dispondo de toda a energia espiritual que pudesse canalizar para proteger aos sacerdotes das crenças diferentes. Ela tinha tempo para ajudar no encontro entre Kraspov e Zeheler para a abertura do lacre de mais um pergaminho das memórias dos antigos deuses, trazido por Olan. Sandra a ajudava, ao mesmo tempo em que aprendia mais práticas e acumulava experiência que seria útil no embate com os anjos aliados a Cristo, mais as evidências para mostrar a possíveis céticos renitentes ou simplesmente para se exibir para Emanoel.
Emanoel, impressionado com as aventuras e fatos novos que via e assimilava, deu sua ajuda levando Zeheler até o aeroporto para que ambos recebessem Kraspov enquanto Silveira tentava contato com Maxwell para passar aos demais as novidades que este poderia ter ao encontrar com Gates e Lugalu. Neste momento especial e crítico, Kelvin passou desapercebido pelos adultos do CR, o domovoy de Kraspov não percebeu a presença do driir que acompanhava o menino, mas eles teriam um outro caminho a percorrer antes de juntarem-se ao CR.
-Como reconheceremos o russo?
-Enquanto eu estive conectado na rede, eu pude vê-lo por alguns instantes. Ele parecia bem assustado com a interferência da bruxa e a presença de Olan.
-Sabe? Está sendo uma experiência inusitada e difícil de assimilar esta habilidade de visualizar entidades espirituais presentes em nossa volta.
-Eu que diga. Eu estou me divertindo muito com o curupira que me escolheu como companhia e protegido. Você deve estar curtindo a presença deste antepassado de sua família, relembrando suas tradições.
-Sabe o que ele me disse ontem à noite? Que cada um de nós recebeu, naquele dia que abrimos o pergaminho, um guia protetor.
-Todos? Eu tento imaginar Silveira e qual o espírito companheiro dele. Ou de Rosângela!
-Minha netinha está bem acompanhada. Ela está com ninguém menos que Dalila!
-O sr também a viu? Acho que a intimidade e proximidade com Sandra nos capacitam a ver sua musa protetora.
-Que tal perguntarmos ao Milton qual é seu companheiro espiritual?
-Melhor deixá-lo quieto por enquanto, ele está abalado e nervoso com esse novo sentido.
-Novo não, despertado! Imagino que está tão surpreso e assustado quanto aquele russo que acaba de aparecer na porta de desembarque internacional.
-Vamos lá, dar uma boa e amigável saudação brasileira!

Laços

Kraspov voa animado em direção ao Rio, enquanto no trajeto conversa com Olan.
-Então, meu caro, as estórias de Tolkien estavam parcialmente corretas?
-Oh, sim. Eu tenho certeza de que muitas estórias mais serão feitas para reacender no homem a fantasia e a imaginação, as pessoas estão ficando muito insensíveis.
-Conte-me, por que seres imateriais buscam com tanto afinco a nossa crença neles?
-Vocês têm uma vantagem: sentem e aprendem na carne. Nós não conseguimos tal sensação ou aprendizado. Quando vocês tornam nossa existência parte das suas, nos tornamos reais aos seus sentidos, conseguimos através desta ligação as mesmas sensações.
-Fale-me do mundo espiritual. Existem diversos povos, línguas, culturas, governos, países?
-Bom, você é o cientista. Por que não se explora as evidências e teorias quanto à existência de outras dimensões?
-Existe uma hipótese. Muitas outras teorias poderiam ser explicadas se admitíssemos a pluridimensionalidade do universo, mas ainda não há um sentido prático ou objetivo em esclarecer esta hipótese.
-Que estranho. Eu lembro muito bem quando pensavam o mesmo da energia atômica, mas bem que os cientistas esqueceram toda a ética ao aparecer algum patrocinador, dando origem à construção de bombas nucleares.
-Nós não somos santos.
-Isso é evidente. Embora os sacerdotes da matéria comportem-se como virtuosos defensores da verdade. E vamos para com esse clichê manjado, como se vocês fossem parte destacada da humanidade ou de uma realidade.
-Ei, ei, ei! Solte minha orelha! Está difícil assimilar o fato, aparentemente óbvio, de que a perspectiva científica é baseada em fugazes sentidos físicos, humanos, falíveis e propensos a influências.
-Por isso que insisti que fosse até o Rio falar com Zeheler. Vocês dois têm muito em comum, poderão trocar muitas experiências espirituais que acumularam em suas vidas. Eu garantirei que lembre sua infância, renegado!
-Aaaiiii! Isso dói! Mas por que está levando este canudo lacrado para lá?
-Este é mais um dos pergaminhos perdidos das memórias dos antigos deuses. Eu estive guardando por muito tempo, na esperança de poder mostrar algum dia, a você ou a algum humano.
-Mais um? Quantos existem?
-Isto eu não sei, apenas sinto que está próximo o dia em que eles serão novamente reunidos para banir o Usurpador.
Enquanto Kraspov tenta conversar com Olan, a aeromoça observa um velho gesticulando e falando com uma poltrona vazia, mas com um estranho aglomerado de sombra. Como ela tinha aceitado e confessado Jesus como seu Senhor e salvador, ela pensava que seria bom denunciar tal fenômeno a algum pastor, assim que aterrissassem. Ela tremia com os pensamentos sobre o que ou quem possa estar ao lado do velho e sua formação cristã não lhe permitia imaginar do que conversavam naquela linguagem eslava enrolada. Ela cismava igualmente com os dois garotos que viajavam sozinhos no mesmo vôo, não possuíam qualquer preocupação e não havia nenhum adulto próximo como seus responsáveis. O garoto mais branco, em contraste com seus cabelos ruivos, demonstrava amizade por um garoto mais mirrado e escuro, ambos conversavam animadamente em galês, sobre coisas e fatos que colocavam uma certa angústia em sua alma. Ela não raciocinava nem permitia que a dúvida assaltasse sua firme decisão por Cristo, ela acreditava indubitavelmente na Palavra de Deus na Bíblia. Sua visão cosmogônica bem como sua noção de existência dependia de que ela cresse, desconsiderando inclusive qualquer evidência, fato, pensamento ou argumento contrário, ela estava alienada e feliz nesta opressão mental, física e espiritual.
Kraspov não tinha idéia de que estava sendo vigiado por uma criatura bestificada, nem percebia que Kelvin estava no mesmo vôo, apenas Rosângela tinha noção do quadro todo e se divertia com a teimosia, do velho cientista e da mulher evangélica. Rosângela, mais que qualquer outro bruxo brasileiro, aguardava feliz a chegada dos passageiros deste vôo e dos presentes que eles levavam, para incrementar e armar mais o CR. Noutro vôo, Maxwell seguia para o Cairo, onde Lugalu e Gates o aguardavam, para prosseguirem com a garimpagem por evidências que provassem a existência das atividades do Comando Tribulação pelo mundo todo, ameaçando a diversidade e a existência da humanidade.
Em terras brasileiras, Zeheler diverte-se com Wanderley, dividindo com ele a companhia de inúmeros artistas. Mas nem mesmo num meio tão rico cultural e intelectualmente nossos parceiros estão livres ou isentos da constante vigilância dos agentes da Comunidade Luz de Jesus. Infelizmente e inexplicavelmente muitos artistas sucumbem diante da conversa fiada desse grupo evangélico ou outro, tal é o assédio religioso e o aliciamento de consciência. Neste tipo de estratégia, os grupos evangélicos são eficientes, basta ler qualquer folhetinho distribuído em público para perceber a evidente distorção da dita Verdade, que é usada e abusada para encobrir mensagens condicionantes e subliminares, com sucesso.
Em São Paulo, Miranda recebe um aviso dos anjos sobre tal chegada, juntamente com um cartão verde do próprio Cristo para executar qualquer estratégia, a fim de unificar as vertentes cristãs no Brasil, sob o estandarte da Comunidade Luz de Jesus. Miranda conseguiu, com seu sucesso, extensão e disposição, ter a atenção do General Espiritual e feliz realizará a todo custo o plano maravilhoso que Cristo tem para o Brasil e, depois, ao mundo. Mal percebendo que dentro de suas linhas, mesmo os seus membros mais devotados não possuem mais contentamento, tal a violência e arbitrariedade às quais têm conhecimento e são compelidos a executar, em nome da missão, em nome de Cristo, em nome de Deus. Entre seus colaboradores eventuais, o compromisso firmado e a cobrança pública os colocam num impasse que os leva, ou ao afastamento das suas funções públicas, ou a rescisão dos vínculos com a Comunidade. Para tais situações, Miranda pode contar com o auxílio dos colaboradores clandestinos e ilegais, que não possuem escrúpulos ou limites para realizar os intentos da organização ou garantir o sumiço do apóstata, mas mesmo este braço forte de seu grupo está para explodir o corpo do monstro que ele criara. Quanto mais age seu monstro, seus colaboradores eventuais e ilegais, mais dr Batista e Silveira apertam o cerco, juntando provas e evidências até chegar um momento em que um juiz, mesmo o conveniado, terá de condenar e exigir o fechamento de sua organização. Miranda, mais do que antes, sente o peso de seu cargo e o ônus da missão que encampou, sabendo que terá muito que acertar, corrigir e realizar em um curto tempo, pelo que lhe intimou o anjo. Cristo estava voltando e escolhera o Brasil para sua chegada.

Explanações

Sandra encerra sua navegação pela internet e dirige-se ao lar de Emanoel, pois ele enviou um e-mail pedindo por algumas explicações, evidentemente ela prefere dar pessoalmente. Ela não achou a autocrítica do escritor convidado muito convincente, mas o conhecendo bem, ela sabia que eu tinha que encaixar este texto dentro dos propósitos desta obra.
-Oi, sou eu. Você quer saber afinal por que nós, a humanidade, temos tanta necessidade de acreditar em algo?
-Como vai minha flor? Sim. Eu não consigo encaixar nossa natureza racional com essa abstração do que possa vir a ser o mundo espiritual.
-Você quer minha explicação como cientista ou como bruxa?
-Eu pensei que não tivesse diferença.
-Brincadeirinha! Eu tentei te pregar uma peça! Bom, os marxistas adoram repetir o mantra do profeta do materialismo: a religião é o ópio do povo.
-Eu lembro disso. Na faculdade era obrigatório decorar que a religião fazia parte do plano maquiavélico da burguesia dominante para permanecer no poder.
-Não obstante a história demonstra claramente que os regimes socialistas e comunistas apenas trocaram as cabeças coroadas, unicamente formaram uma nova classe de elite.
-Sem incluir o fato de que as muitas revoluções que ocorreram ao longo da história deveram-se a fatores mais complexos que simplesmente uma luta de classes.
-Mesmo porque não há mais sentido em continuar a insistir neste mito moderno. Uma mudança efetiva só ocorrerá se fizermos uso de nossa cidadania e participar ativamente de nossa vida em comunidade, dentro do processo histórico, de forma consciente.
-Mas não poderei esclarecer sua dúvida sem tocar neste assunto. Para os marxistas, a promessa de uma Vida Eterna, cheia de felicidade e prazer, promove o desinteresse das massas na vida atual, material. Isto garante que a riqueza produzida pela classe operária sempre será acumulada pela classe dominante, a burguesia.
-Mas isto é ilusão, uma vez que a dita classe burguesa é composta de diversos setores, com objetivos e métodos diferentes, simplesmente é impossível que haja um corpo único a ponto de garantir o poder nas mãos dessa classe inexistente.
-O mesmo ocorre com a dita classe operária, pelas mesmas razões. Não foi por bloqueios econômicos ou ações políticas de um governo oculto Imperialista que causou a queda das inúmeras tentativas de implantação do socialismo ou do comunismo. Simplesmente as realidades objetivas, derivadas das condições materiais, técnicas, humanas e administrativas eram completamente inadequadas com os objetivos dos tecnocratas do governo.
-Seria interessante perguntar aos teóricos por que exatamente no meio elitista se encontra o maior consumo dessa parafernália mística que abunda no mercado.
-Seria provocativo lembrar que, em última análise, o profeta do materialismo era tão burguês quanto a classe que dizem combater.
-Mas qual a explicação que a bruxa pode me dar?
-Bom, essa relação entre extrema riqueza sendo sustentada por imensa pobreza é útil ao regime político e religioso em destaque. Realmente, uma maioria se dispõe a trabalhar, produzir riquezas, sendo os maiores beneficiados uma minoria. Nisso entra o real projeto de opressão, material e espiritual. Entretanto, mesmo com um enorme poder político e econômico, não houve um império ou reinado que tenha durado para sempre. O que nos demonstra que é real a existência de certas forças que não pertencem a essa dimensão, nem a essa relação dialética entre esses entes fabulosos, as classes sociais.
-As pessoas tiveram uma boa exemplificação disso com o auge e declínio do Império Romano.
-Exatamente. Agora eu introduzo o conceito das antigas tradições: não se pode escapar do peso da responsabilidade dos atos. Ou parafraseando Newton: para toda força existe outra força, de igual intensidade, em sentido contrário.
-Eu lembro claramente que não foi essa a opção das pessoas na época. Refugiaram-se em um sistema rigoroso de virtudes, morais, culpas e penitências. Este sistema produziu um aparente realinhamento, mais por efeitos materiais que espirituais.
-Pois então! A crise da atual sociedade é um fato que mostra a iminente necessidade da humanidade começar a crescer, ser madura, responsável e consciente de seus atos! Manter esse sistema religioso é absurdo e é uma violência à natureza da nossa raça! Ao contrário do que se alega, as antigas tradições não pretendem fazer a humanidade voltar ao passado agrário e inculto, mas de conduzi-la a este estado de maturidade, em direção ao futuro! Não faz o menor sentido em achar que bruxaria seja simplesmente fazer feitiços ou rituais sazonais. Os atuais cientistas apenas estão aproveitando o que antigos alquimistas descobriram, com a ajuda das tradições copiadas de druidas, que aprenderam os segredos da natureza com os xamãns, que obtiveram tal talento diretamente através de sua sensibilidade mediúnica espiritual. Os espíritos não querem transformar os vivos em zumbis consumidores dessa babaquice espírita, eles querem que sejamos vivos e aproveitemos nossa existência, de forma material, carnal. Como eu li de um escritor: pois é no contato entre as carnes que se amadurece o espírito.
-Mas então qual é o objetivo destes sacerdotes espirituais?
-Além de compartilhar o poder e a veneração da sociedade com a chamada elite? Eles basicamente prestam um serviço, de intermediar as pessoas com o mundo espiritual. As pessoas, desesperadas pela conjuntura social, produzida por sua alienação e pelo regime político e religioso vigente, concedem a estes o privilégio e o monopólio sobre os caminhos espirituais, por mais evidente que seja o estelionato, a extorsão, a vigarice e a fraude deste pseudo-serviço espiritual ao público.
-Quando, em verdade, os caminhos estão abertos e franqueados a todos que os buscarem e vierem a conhecê-los, sem intermediários, prepostos, profetas, sacerdotes ou figuras messiânicas.
-Nos evangelhos, de autoria alegada aos apóstolos, citando uma frase atribuída a Jesus, diz-se: conhecereis a verdade e ela os libertará. Quantos são os que buscam o conhecimento? Antes deturpam, vituperam e estupram a verdade, escravizando aqueles que os permitem mantê-los na ignorância, em nome da fé.
-Isso eu lembro de ter lido: não há salvação, pois inexiste o pecado sem a culpa. Não havendo salvação, Cristo sacrificou apenas seu lado carnal, sua natureza humana. Cristo, ao negar sua natureza humana, aprisiona a humanidade num sentimento de dívida e pecado que inexiste. Cristo precisava negar sua natureza humana, para evidenciar sua natureza divina e por conseguinte sua missão. Mas se era um ser divino, ao encarnar torna igualmente divina a natureza carnal e humana, a reconheceria e a compreenderia. Uma vez que a nega e tenta destruí-la, mostra que era um homem que pretendia ser divino e as sensações carnais produziam nele um conflito psicótico a ponto dele convencer-se da necessidade de purgar esta natureza conflitante com seu delírio esquizofrênico megalomaníaco.
-Esse é um resumo bem complexo do fenômeno. Mas pelo que aprendi com meus guias espirituais, é de que havia uma presença, um espírito, uma entidade que se apossou desta pobre mente e a conduziu deliberadamente ao martírio.
-Que, pelo que lembro de ter ouvido a Rosângela, tal entidade não é outra senão o Usurpador, chamado de Iahvé.
-Eu espero que meu avô consiga mais pergaminhos antigos, iguais ao que minha família manteve por tanto tempo. Talvez nós poderemos entender como, quando e por quê Iahvé planejou e executou tal abominação.
-Acho que teremos que aguardar o próximo capítulo. Os roteiros estão ficando interessantes.
-Você errou sua fala. Devia ter dito: assim seja, a Deusa queira!
-Ora, você acha mesmo que tem mais alguém lendo?

Autocomiseração

Aham. Testando, testando. Algo que custa caro a escritores, mesmo aos pretensiosos, é usar de alguma autocrítica, afinal ele é o senhor das palavras, acentos, orações e períodos, um ser privilegiado, intelectual e literariamente. Aos governantes ser-lhes-ia fatal a ética, aos sacerdotes a condenação vem das doutrinas que defendem e para o povo o suplício vem de seu comodismo e conformismo a esta conjuntura. Em qual obra o escritor se dispõe em público, tão ignorante e iletrado, quanto aos seus possíveis leitores? Qual candidato, uma vez eleito, realmente seguiria sua plataforma de governo ou cumpriria suas promessas? Aos sacerdotes, dispenso comentários pois esta piada está obvia por si mesma.
Eu poderia começar aquela velha choradeira costumeira, culpar meus pais, a sociedade, as más companhias, a falta de oportunidades ou alegar problemas psiquiátricos, num exercício de autocomiseração que não convence mais sequer a mim. Eu sei que não estou sendo justo, imparcial ou tolerante com o cristianismo. Eu mesmo possuo mitos, fantasias, superstições, pseudocertezas, pré-conceitos, pré-juízos, etc. Eu também reconheço que conduzo a história mediante meus objetivos, mesmo que isto não faça de mim mais verdadeiro ou certo, nem tenho concessão de alguma competência, autoridade ou capacidade.
O que sei eu do mundo espiritual? O que posso dizer ou contar do Reino das Trevas, estando preso a um corpo material e limitado? O que eu ganhei ou realizei, debochando de crianças brincando de bruxas ou escoteiros brincando de satanistas? Por acaso eu posso oferecer minha cabeça à coroa de louros por sempre ganhar dos crentes nas disputas filosóficas em chats evangélicos? O que me deu em retorno até hoje esta tremenda inteligência que creio e me fazem crer possuir? Por que insisto em escrever, sabendo que minhas estórias nunca terão leitores, nem em mil anos? A certeza que possuo serve apenas para meus caminhos, necessidades e propósitos.
Eu estou feliz em ter me encontrado vivo e realizado por escrever, considerar-me escrito nos livros das Trevas, ter um sonho de ser inscrito em alguma futura crônica? Sorte a minha. Em meu livro obliterado do público, deixei previamente bem detalhada minha paixão e fervor pelo Reino das Trevas, não irei repetir.
Caso haja vida inteligente fora destas páginas, eu digo que não me ponho em juízo, não dou a ninguém este privilégio. Tudo que fiz, certo ou errado, faz parte da minha história, da minha biografia, eu não seria humano em renegar parte do que fiz ou fui, absolutamente tudo teve um propósito para me conduzir até a presente maturidade, em processo contínuo, graças a Lilith. Dos meus mitos favoritos, permito-me ver no mundo espiritual, rindo da cara dos evangélicos ao verem, apavorados, o tamanho do engodo em que eles caíram, a farsa da vigarice mais bem planejada da história da humanidade. Não é melhor e mais delicioso que imaginar sentir meu pequeno espírito ser aninhado por Lilith, com imenso apreço por meus serviços prestados, mesmo que não seja favor algum reverenciá-la.
Eu apenas espero, como bom escritor, demônio e observador o desenrolar dos fatos, enquanto a massa continua sendo enrolada e sovada. Para este país, considerado como a terra do futuro, o berço do terceiro milênio, nós como cidadãos deste presente temos o dever e a obrigação de começar a arregaçar as mangas e iniciar as obras, sem esperar por permissão política, eclesiástica, o escambau. Eu apenas peço aos que possivelmente venham a ler para fazer suas análises literárias, psicológicas ou teológicas, que me concedam apenas esta convenção, mesmo que absurda ou fantasiosa: não houve ameaça maior à humanidade do que o cristianismo.
Eu não possuo a mesma pretensão que um Paulo Coelho, não quero iniciar um estilo ou escola, deixem minhas opiniões repousarem em paz nestas páginas, da mesma forma que meu corpo descansa em algum canto de cemitério, o que virá a seguir em meu destino, será aceito e continuarei a caminhar, o que restar deste mundo não mais me interessará.
Até onde consegui agüentar, continuarei contestando e contrariando este estúpido senso comum e esta mediocridade comercializada, correndo o risco de ser desagradável, impertinente, grosseiro ou ofensivo às mentalidades infantis, presentes em pessoas supostamente adultas. Enquanto brincam de viver e de fazer magia, eu conheci o ventre da Deusa. A magia é uma ferramenta, a ação vem da mente, as fórmulas são como caminhos para a mente acessar a energia, tal como no computador, onde é necessário clicar no local exato para se obter um efeito. A Deusa não tem nada de doce, alegre, colorida, perfumada ou pacífica, a Deusa se manifesta tal como a natureza, ela é igualmente caótica, agressiva, cruel, perversa, escura e fatal. As crianças presentes que me desculpem se fui tão sincero, direto e incisivo, mas meu compromisso é com Lilith, não com o bem estar psicológico nem a paparicação alheia. Fim de caso, nós seguiremos com a caravana, sem temer os filhotes que latem atrás com sua pequena moral ofendida.

Paralinguagem

Que tal voltarmos um pouco ao nosso núcleo brazuca? Eu tenho que escolher um dos personagens para ser o amarrador das passagens anteriores, aquele ou aquela que vai juntar no Circulo Racional estes colaboradores externos. Eu poderia colocar Kraspov em contato com Zeheler, por terem muitas coisas em comum, ainda que o velho cientista hebreu tenha tido sua dose de aula da bruxa Rosângela, ele teria mais probabilidades de entender Kraspov em sua obstinação científica. Eu poderia colocar dr Batista em conferência on-line com os agentes de além mar, trocando informações e estratégias, com isso inseria o grupo de Kelvin, providencialmente navegando pela rede, mais a Lugalu que entraria junto com Kelvin nessa linha privativa por influências sobrenaturais. Ou eu poderia definir como metatecnológicas, paracibernéticas? Enfim, no momento não consigo encaixar Emanoel nessa trama, logo ele que foi usado para introduzir o texto e devia ser o personagem principal. Por falta de assunto, eliminei seu mentor dr Lemos e sinceramente não sei mais como se encaixa no enredo o pobre Wanderley. Mesmo as duas heroínas principais estão abandonadas, Sandra não consegue concluir seus estudos sobre as tradições antigas e Rosângela com todos seus atributos e talentos não consegue mais me encantar. Que tal colocar a perspectiva da coisa toda justamente nas mãos de Miranda, o principal carrasco neste teatro? Eu ficaria extasiado com esta oportunidade em colocar nas ações deste pulha o motivo que uniria e fortaleceria ainda mais o CR. Eu poderia incluir mais um personagem , inexplicavelmente, sem origem, sem propósito, sem destino, senão o de conjugar meu verbo. Um coronel, um soldadinho do Exército do Cordeiro estaria bom. Um anjo, um vulto, algum deus antigo ou o Usurpador? Nada.
Eu procuro saber então pela internet como está a reação com o filme em cartaz no momento, que certamente provocará as mais diversas reações, um filme que poderia muito bem ser inserido nesta peça como prova gritante aos leitores distraídos, o filme dirigido por Mel Gibson: A Paixão de Cristo. Um gancho perfeito para demonstrar que realmente existe um estranho movimento mundial para a unificação do cristianismo e sua disseminação por todo o mundo, a despeito de toda a diversidade e riqueza cultural. Nada que eu não esperava, tudo bem civilizado, dentro dos limites do politicamente correto, opiniões apaziguadoras até em demasia. Minha conexão estremece e minha tela entra em convulsão, diante de mim vejo as imagens provindas de uma webcam onde 3 pessoas conversam em inglês, absolutamente absortas neste triálogo. Com meus parcos conhecimentos nesta língua consigo entender algumas palavras, algo sobre a urgência do momento, sobre grupos terroristas, fundamentalismo, perigo mundial. Quando estou para decifrar tal bizantismo, novamente a tela treme e surge uma imagem nítida que também assombra meus inusitados convidados, uma mulher de beleza rara e esfuziante sabedoria que emanava de dentro dela nos põe a todos a par do que ocorre, em bom e claro português tropical.
-Muito bem, meninos, eu creio que tenho a atenção de todos. Vocês estão reunidos neste meio para que comecem a engrossar a união de todos os espíritos e criaturas deste ou de outros mundos para impedir, deter e vencer de uma vez ao Usurpador, ao Cristo, ao Cordeiro. Yheshua é Iahvé, o mesmo tirano que se colocou no trono, com as mesmas palavras doces, enganando seus irmãos, os Elohim, mais todos os criados deste clã. Primeiro adoça os ouvidos, depois ataca com um punhal seus próprios aliados, irmãos e colaboradores, pois somente ele quer ser o Senhor. Não há recompensas, nem tesouros, nem cargos, nem paz, nem glória, nem Paraíso.
-Aham. Permita-me. Quem é você e como conseguiu entrar nesta linha privada?
-Sr Kraspov, eu sou aquela bruxa que você pretende dar uma lição. Quanto a como entrei nesta linha, deve perguntar a sr Gates, que está nos ouvindo agora mesmo.
-Ehhh. Basicamente não existe sistema interligado computadorizado que seja totalmente secreto, privado ou impossível de ser detectado ou violado.
-O sr escritor lembra algo disso?
-Ehhh. Na obra psicótico-evangélica que é nossa fonte de preocupação, os revoltosos usam muitos aparatos tecnológicos supostamente indetectáveis e intransponíveis. Uma boa lorota, afinal pela obra o Anticristo consegue dominar todo o mundo, mas não consegue fazer um sistema de vigilância eficiente que coíba ou proíba as comunicações dos resistentes, nem sequer de dentro de seu palácio!
-O sr Gates consegue detectar todos os computadores interligados nesta linha?
-Isso é moleza! Nós temos aqui de Cairo o registro dos agentes em Londres mais os registros do Brasil, sejam do CR, seja do escritor convidado.
-Dos computadores ligados no Brasil, algum do Estado de Alagoas?
-Ehhh. Não.
-Consegue detectar de qual computador eu possa estar me comunicando com o grupo, ou de como eu consegui entrar nesta linha privativa, ou mesmo de como eu consegui juntar todos os presentes na mesma linha?
-Ehhh. Definitivamente, não.
-Sr Kraspov quer tentar? Que tal uma explicação científica, racional?
-Sra, eu bem que gostaria. Mas no exato instante em que começava a falar, eu tive minha orelha puxada por um homem que até dois minutos atrás sequer estava nesta sala.
-Pergunte a Olan, o domovoy de sua família.
-Bruxa, bruxa! Por que este homem abandonou-me? Eu estou seco, faminto, calvo, tudo por causa deste renegado! Eu lhe peço, conte a Thortchev e que ele me leve de volta!
-E o sr Gates? O que acha do abiku que acompanha Lugalu? Algum efeito especial feito por Stephen Spielberg?
-Hããã. Eu vi esse menino, pensei que fosse irmão dela.
-Lugalu? Você tem irmãos?
-Nenhum. Somente irmãs. Mas minha mãe conta que minha avó perdeu um filho dela, ao nascer. Pelo que este abiku me conta, ele deve ser meu tio.
-Sres Maxwell e Bacon, existem mais dois homens junto com vocês. Quem eles são?
-Estranho. Não os havia notado. Não parecem ser técnicos em computação ou internet. Ao meu lado eu vejo um jovem com aparência escocesa, ao lado de Bacon tem um velho que lembra os antigos celtas.
-Depois vocês se apresentam e satisfazem as dúvidas e perguntas que tiverem. Neste instante nós podemos dizer o quê ao jovem Kelvin, que está dentro da linha de Londres, quanto ao vulto que o resgatou do inferno que se forma em igrejas batistas?
-Bom, eu creio que como pseudo-escritor desta obra devo dizer que é um driir, um ajudante elemental dos druidas.
-E eu, como sua mentora mágica e orientadora desta obra, devo te dizer que está indo por um bom caminho, começa em bom tempo seu processo de cura e aprendizado. No próximo capítulo, comece com uma boa autocrítica.
-Até lá, o que faço?
- Diga alguma frase espirituosa e mordaz aos leitores e encerre essa sessão. Deixe como está e desligue o computador.
Pela promessa da Vida Eterna, o Homem vendeu o único bem que realmente lhe pertencia: sua humanidade.

A fauna do campus

Lugalu estava apaixonada pela faculdade, o conhecimento e a sabedoria eram explícitos, um universo de grupos compartilhava o espaço democraticamente em respeito mútuo. Muitos grupos de jovens são tão convencidos em suas rebeldias pueris, esforça-se tanto em parecer diferente do mundo adulto que acabam formando suas tribos, com hábitos e vestes padronizadas, características. Chega a ser repugnante ver garotas ricas, cheias de manias e mimos, desperdiçarem o futuro profissional delas com tanto consumismo das bagatelas esotéricas vendidas a granel, se dizendo bruxas e se metendo a fazer rituais como se estivessem executando uma programação de computador. Do outro lado tem as garotas pobres, que usam e abusam do monopólio e privilégio que se concedem, por estarem convencidas em seu sacerdócio em prol do marxismo, mostrando tanto conservadorismo e policiamento de costumes e atos alheios como seus adversários evangélicos. Em ambos os casos, ter uma conversação séria é algo raro e difícil. Dizer ou mostrar a tais deslumbrados que suas opiniões ou convicções são meros sonhos é ofender a virtude de tais apóstolos.
Entre suas explorações virtuais, Lugalu encontrou diversas ordens e religiosidades, com gente aparentemente séria e com boas intenções, mas com uma simples análise das doutrinas básicas, ficava evidente o tamanho do delírio; investigando a vida dos fundadores, era fatal encontrar algum passado nebuloso, criminoso ou com algum trauma. Não poupou seus esforços de investigação em grupos religiosos que professam antigas doutrinas africanas, ela encontrou muito vigarista, aproveitador, difamador e deturpador dos valores que ela aprendeu quando criança. Ela ficou encantada por saber que existe muita gente competente que conserva as tradições tais como elas são, dando a elas cores e matizes modernos e atuais, que é o que se espera de uma base espiritual para nossas necessidades existenciais. Nisso havia um consenso: uma boa orientação espiritual, mística, esotérica ou metafísica deve acompanhar a história da humanidade para que esta não fique empedrada em convenções e padrões voláteis e instáveis; afinal são produtos humanos, de uma época, de uma cultura, de um povo, de uma perspectiva e de certas necessidades.
Encontrou então certos indícios que apontavam para um resgate das antigas tradições em contraponto a uma imposição autoritária e arbitrária do cristianismo a outros povos, culturas e crenças. Numa interessante sombra a este fenômeno que se incrementava, a partir da década de 60 ela encontrou um grupo que, influenciados e liderados por Anton Szandor LaVey, organizaram e fundaram as COS: igrejas e templos satanistas, numa reação mais firme e decidida ao domínio do cristianismo no mundo.
Isto, evidentemente, foi imensamente explorado pelos sacerdotes dominantes, que indicaram nisto uma evidência de que a humanidade estava ameaçada pelo reino de Satan e seus colaboradores terrenos. A opinião destes sacerdotes cristãos era de que estes governantes formavam um verdadeiro regime político oculto malévolo, que planejavam perseguir e aniquilar o povo de Deus na Terra, em especial os cristãos, para o delírio de neuróticos e psicóticos evangélicos. Não faltava literatura apologética, apocalíptica e escatológica para alimentar essa teoria de conspiração absurda ou ações terroristas de grupos fanáticos. Isto a animou, os homens santos do cristianismo estavam demonstrando a verdadeira face de Jesus, mais afeiçoada a outro personagem, mais histórico e real: Hitler.
Ela começou a procurar tudo que havia sobre as antigas tradições e satanismo, aparentemente faces inversas de uma mesma moeda, fluxos invertidos de uma mesma Deusa, apesar dos protestos dos puristas destas formas. Sobre as antigas tradições havia muita confusão e dominavam interpretações pessoais, mesmo os textos e mitos em que estas doutrinas foram baseadas não pareciam ser concludentes ou intercambiáveis e o mercantilismo de objetos relacionados a elas não ajudava muito a estabelecer parâmetros confiáveis. Sobre satanismo, havia um engraçado comportamento entre seus seguidores, apesar de criticarem o cristianismo sua entidade principal é parte deste; apesar de desmerecerem práticas ritualísticas ou mágicas, estabeleciam ritos e magias derivados destes mesmos sistemas; apesar de toda a empáfia e orgulho que portavam, não tinha consenso entre eles, mais pareciam grupos de escotismo.
Não foi fácil estabelecer um consenso entre fatos tão contrastantes e conflitantes. As antigas tradições são todas as que religam a humanidade à sua essência, sua natureza, dentro da Grande Mãe. O verdadeiro satanista é antes um bruxo, pois defende a essência humana e, tal como sua principal entidade, enfrenta e desafia o Usurpador por saber o objetivo da existência humana: herdar o trono dos deuses. Com um conceito bastante simples com este, evitar-se-ia mais confusões e dissensões entre os bons pagãos.
Durante seus estudos e pesquisas, veio a encontrar os livros que tanto vem fazendo sucesso entre os evangélicos, uma seqüência com a saga de um grupo de evangélicos, durante o que eles acreditam que virá a ser a época do domínio do Anticristo, tomando o sentido das estórias bíblicas dentro do mais absurdo literalismo. Qualquer retardado que tenha algum conhecimento de história conseguiria perceber os enganos cometidos pelos muitos escritores desta obra, cheia de metáforas, preceitos doutrinários e filosóficos discutíveis, contraditórios. Esta obra bem poderia ser considerada humorística, tal a imaginação destes escritores, em corroborar a visão tendenciosa e preconceituosa que os grupos evangélicos não têm vergonha de manifestarem. Mas ela sentia que esta obra singela fazia parte do plano destes grupos e do Usurpador em eliminar qualquer dissidência entre seus seguidores e erradicar totalmente esta qualidade humana que ameaça seu domínio: diversidade. Por isso, ela teve o ímpeto de tentar ajudar no que podia aos investigadores que faziam parte da coalizão mundial para esclarecer de uma vez os atentados e as perseguições religiosas, ela enviou por e-mail aos investigadores Maxwell e Bacon sua pesquisa pessoal. Ao lado dela, um americano olhava suas atividades e descobertas com um olhar entre perplexo e aliviado, mal conseguia se conter em sua aflição e angústia. O americano aproximou-se, atrapalhado em seu disfarce, olhando para os lados a fim de certificar-se que não estavam sendo vigiados para enfim sentenciar:
-Prazer, meu nome é Gates, Constant. Eu fui o cérebro eletrônico de uma parte deste monstro e também quero ajudar.

Refugiados

Kelvin custava a acreditar, após passada uma semana não houve qualquer tentativa de busca de seus pais por ele e certamente ele não iria até eles para procurar saber o que estava acontecendo por lá. Em seu refúgio num edifício abandonado da Praça Kerrigan, centro de Dublin, ele olhava curioso para seus novos amigos e salvadores. Naquele local, ocupado por tantos desabrigados e famílias carentes, a presença de quatro crianças era completamente ignorada, mesmo sem possuir portas ou janelas, ali tinham mais segurança e proteção que nas casas de seus legítimos pais. Na quietude caótica de uma praça central de uma metrópole, ele reavaliava e reformulava seus sonhos de futuro, parecia ser evidente que seu futuro seria igual ao dos revolucionários, deslumbrados com seus sonhos messiânicos; ele teria que sobreviver de furtos ou da caridade alheia, vivendo feito nômade de cidade em cidade, sempre em fuga da figura opressiva da sociedade constituída.
Kelvin não conseguia encaixar seu futuro com seus amigos, teriam eles algum futuro? Qual seria a história de vida de cada um? Por que eles tinham entrado no templo batista para resgatá-lo daquele circo de lunáticos? Dos 3 que o salvaram, ele conhecia de vista a Robinson, cursava a 8ª série numa escola uma quadra acima da dele e os garotos da 6ª série sempre iam no recreio mexer com ele, por causa de seus modos afeminados. Conhecia igualmente de vista a bela Alanis, que abandonou uma bolsa de estudos na Faculdade de Artes W Shakespeare para cair na chamada vida fácil, segundo dizem, por ter sofrido abuso do pai, do tio, de um policial ou de algum padre local. O que mais lhe avivava a imaginação era o garoto moreno e a sua aparência peculiar. Ele conhecia negros, hispânicos e mestiços em geral, mas nunca havia visto um garoto assim, nem nos documentários da National Geografic que assistia numa ligação clandestina, na casa de um tio. O que lhe causava tanta admiração era o caráter nebuloso, vago, translúcido que o corpo desse garoto demonstrava; seus olhos pareciam fixar-se em um local aquém, num olhar calmo e pacífico; suas palavras soavam como lamúrias poéticas, cânticos melancólicos de um péssimo imitador de Baudelaire.
-Bom, acho que está na hora de começarmos a fazer algo.
-Eu gostaria muito. Eu gostaria de saber a razão pela qual me trouxeram aqui.
-Você não estava gostando nada daquele culto, deu para perceber.
-Nem um pouco. Tem algo relacionado a isso?
-Tem tudo. Nós estamos nos aproximando de um momento no qual a humanidade se verá diante de uma encruzilhada: ou vive como gente racional, ou vive como gado.
-Mas e nós? E eu?
-Não é toda criança e adolescente que vive feito uma cópia piorada das gerações anteriores. Existe pelo mundo toda uma geração nova que está preparada para a Nova Era. Nós sentimos que você tem potencial para fazer parte desse novo Aeon.
-Meu, esse papo tá muito parecido com os do Matrix. Vocês podem explicar o caso todo de forma simples e clara?
-Nós vivemos numa época convencionada como Depois de Cristo, certo? Quer dizer que estivemos até hoje sob o domínio de uma entidade divina que é diretamente responsável ou conivente com as desgraças que afligem a humanidade neste período.
-Não conheço muito a história da raça humana, mas problemas parecem coexistir pela nossa própria condição humana.
-Que foram exacerbados ou piorados com a implementação do monoteísmo. Mesmo nas chamadas épocas pagãs, nunca houve violência ou arbitrariedade religiosa tão exacerbada quanto na presente época.
-Como era antes do Cristianismo?
-Não vou te enganar, contando histórias de civilizações perfeitas, utópicas, feitas de heróis ou semideuses. Mas a humanidade era uma aprendiz, os deuses antigos acreditavam na capacidade desta em adquirir a consciência plena, sem o auxílio ou a interferência destes. Nossa história foi escrita pelas nossas ações, vontades e sonhos, fossem estes benéficos ou prejudiciais. Muito do que viemos a sofrer foi reflexo de nossos orgulhos. Infelizmente, isto gerou na humanidade uma insegurança e receio de fracasso, neste momento uma entidade associou-se a um grupo, oferecendo-lhes a segurança e a vitória que sempre pertenceu a todos. Em troca, exigia exclusividade de culto, observância de regras morais impostas por esta entidade e disposição deste grupo em guerrear contra qualquer outro grupo que possuísse deuses diferentes.
-Por que estas entidades procuram a crença da humanidade?
-Nossa origem não foi apenas fruto de evolução, foi intencionalmente planejada e conduzida. Parte de nós é fruto da evolução animal, biológico, material. Parte disto é presente divino, evolução espiritual, tautológico, sobrenatural. Os deuses também nascem, crescem e morrem. Nós somos a semente dos deuses do futuro. Mas alguns deuses necessitam da fé humana para continuar a existir além do permitido, é fundamental então que se apresentem como o maior, mais poderoso, único verdadeiro e digno de louvor. Para garantir isso, precisam incutir um complexo de culpa, facilmente assegurado pela insegurança e receio de fracasso da humanidade. Iludida pela aparência iluminada e palavras cheias de benevolência, santidade e misericórdia, a humanidade submete-se a tal entidade, tornando-se mais escrava e miserável. Como parte desta programação insana, um grupo para manter-se como povo eleito e santo, para disfarçar sua condição de lacaio, transmite o nome e as regras da entidade aos descendentes que, por ignorância, perpetram esse sistema de opressão espiritual. Quem mais lucra com isso são os intermediários que se apresentam em nome de tal entidade, os sacerdotes. Como eles são incapazes e incompetentes para qualquer outra atividade, faz da crença seu negócio e as pessoas entregam alegremente o monopólio e o privilégio sobre os caminhos espirituais a tais parasitas, por motivos que a razão desconhece.
-E como nós, crianças, faremos para acordar as pessoas desta ilusão tão bem engendrada?
-Dizendo e demonstrando a verdade a todos, aproveitando do senso comum que diz que as crianças sempre são sinceras.
-Mas se as pessoas estão tão aferradas a este sonho a ponto de o considerarem real, quais são as chances delas quererem acordar? Como poderemos demonstrar se não nos ouvirem nem considerarem as evidências?
-Felizmente, a mente humana evolui, apesar da programação e do peso da tradição. A concepção das pessoas sobre mitos antigos e novos está mudando, as pessoas querem mudar e está incomodando esta entidade autoritária bem como as estruturas religiosas que foram desenvolvidas pelas parasitas. A humanidade está retornando à sua natureza, querendo conviver em paz consigo, com a comunidade, com o meio ambiente. A humanidade percebe que é necessário abolir toda culpa, neurose ou psicose que foi desenvolvida para manutenção dessa opressão espiritual. Sabe o que isso quer dizer? Que a Grande Deusa está retornando para expulsar o Usurpador do trono da Terra e entregá-lo a quem de direito: a raça humana.
-Isto está ficando meio místico demais. Primeiro contem-me da Deusa e qual o projeto que esta tem para a humanidade?
Pouparei aos leitores de detalhes doutrinários, mesmo porque existem inúmeros livros sobre o assunto, alguns são bons, outros são pura picaretagem. Mas faz parte do processo, cabe a cada um de nós, conscientemente, filtrar as informações e decidir o que é válido ou o que é mais um produto comercial. Mãos à obra!

Espiões

Bacon mal conseguia tomar seu café, enquanto esperava Kraspov chegar do aeroporto. Em seus estudos para entrar na Interpol, velhos agentes conversavam com um peculiar respeito e consideração a respeito deste agente da ex-KGB, no círculo dos espiões internacionais este nome era acompanhado de temor e paixão, seu profissionalismo e eficácia era invejada em 3 continentes, ele se sentia como um cadete na frente do diretor, como um estagiário em frente a um sênior. Ele percebeu a chegada do velho agente com os olhares gelados e extasiados dos agentes próximos à recepção, a delegacia regional da Interpol simplesmente paralisou diante daquele dinossauro. A aparência não denunciava sua origem russa, aqueles olhos azuis e cabelos brancos bem podiam pertencer a um bom senhor londrino, as roupas estavam adequadamente escolhidas para o ambiente britânico, mesmo seu sobretudo e maleta eram desproporcionalmente comuns. Seu único delator estava no sotaque, quando tentava comunicar-se com o tradicional inglês anglo-saxônico, apenas em escolas de ensino desta língua para estrangeiros, mal informadas, mantém essa forma arcaica de língua inglesa. Com espantosa informalidade, dispensando cerimônias e apresentações delongadas, Kraspov sentou-se à frente de Bacon, aguardando o relatório da missão desenvolvida até aquele momento.
-Boa tarde, sr Kraspov, um instante enquanto nos conectamos on-line com Maxwell para uma conferência.
-Ah, belo laptop. Esses brinquedinhos eram montados e desmontados na KGB. Sabia que a internet foi uma invenção socialista? Nós inventamos o aparelho de fax antes de sequer ser imaginado pelos americanos e conectávamos de diversas formas, aparelhos de televisão com os de fax para comunicação instantânea. Evidentemente tivemos que manter o sigilo quando um de nossos aparelhos foi capturado e copiado pelos americanos que o lançou no comércio e depois as conexões entre aparelhos, facilitando o aparecimento da internet. Até o nome escolhido para este tipo de comunicação parece russo: internet.
-Eu sou novo nesse ramo, não tenho tanto conhecimento assim, mas podemos verificar essa história depois. Veja na webcam, nós estamos conectados com Maxwell, neste instante.
-Sr Kraspov, é um prazer poder ver e falar com o sr. Aqui nos EUA o sr também é uma lenda. O sr recebeu nosso relatório prévio?
-Sim, embora pareça muito com ridículas teorias de conspiração, como muitas das que conhecemos, surgidas após a 2ª Guerra Mundial. Se quiserem que a comunidade global os ajude a debelar esse possível grupo ou impossibilitá-lo de qualquer atividade, eu terei que verificar as fontes e as evidências pessoalmente.
-Por qual parte das evidências deseja começar?
-Esse tal de Comando Tribulação. O que é, de onde vem, quem é o responsável, onde age, qual o objetivo e as táticas implementadas?
-Esse grupo surgiu da coalizão de vários grupos neopentecostais nos EUA, impressionados e estimulados por inúmeros sermões dentre seus pastores colocando a realidade premente de um futuro Julgamento Final, precedido de um arrebatamento dos crentes. Estes pastores tomaram duas fontes como apoio aos seus sermões escatológicos: a bíblia e um livro escrito nos últimos anos por Tim LaHaye e Jerri Jenkins. Esta obra tem seguido a mesma seqüência, contando de como seria a vida das pessoas após tal Arrebatamento, durante um período chamado Tribulação, onde o Anticristo ascende ao poder total na Terra.
-E qual a conexão?
-Simplesmente este conglomerado de diversos grupos evangélicos tomou o nome do grupo da obra, o qual surgiu como uma alternativa ao povo de deus, os crentes em Jesus, para sobreviver, desafiar e resistir ao governo do Anticristo.
-Ou seja, por algum motivo esses grupos evangélicos pensam estar na época fictícia explorada pela obra. Existem grupos islâmicos que identificam os EUA como o Grande Satan e que existe realmente uma organização oculta trabalhando para garantir tal domínio mundial. E eu que pensei que a URSS fosse o Grande Satan do capitalismo ianque! E como tem apóstolo do marxismo acreditando que existe o Imperialismo ianque! Alguém lembra aqui qual foi o grande bode expiatório usado em 1930 para começar a 2ª Guerra?
-Exatamente por isso que o chamamos. Nós temos razões suficientes para crer que o cristianismo está para mostrar sua verdadeira face retrógrada e autoritária.
-Ora, ora! Vocês vão precisar mesmo de um ateu contumaz para detectar e desmontar este aparelho de ideologia espiritual. Vamos aos nomes, locais e organograma!
Bacon passou os nomes e locais de centros de atividades na Europa, Maxwell declarou os que pôde registrar nos EUA. Precisariam verificar a Ásia, a África, as Américas e a Oceania a existência e forma de ação deste grupo. Maxwell aproveitou para falar do Brasil e do grupo que está colaborando como consegue na missão. Kraspov mostrou curiosidade em conhecer e conversar com tal grupo de resistência racional, em especial vindo do Brasil onde seu nome e sua importância desaparecem, o deixando mais à vontade para trabalhar diretamente no problema, com auxílio desse grupo. Ele riu bastante ao saber de Maxwell que o grupo contava com o auxílio logístico de uma bruxa.
-Bem, nem tudo é perfeito. Conheço muitos cientistas que conservam suas superstições. Vejamos o que eu posso fazer com esses brasileiros, em especial esta bruxa. Eu tenho certeza que irei me divertir.
Enquanto Kraspov contava vantagens em Londres, Lugalu chegava no Cairo para começar seu curso na faculdade, vivendo e devorando cada experiência que pudesse assimilar no campus, não apenas as teorias como as práticas, neste belo ambiente cercado da diversidade e riqueza que a humanidade consegue produzir, mas que provoca medo, temor e insegurança nestes grupos religiosos, em especial os monoteístas e em particular os cristãos. Aparentemente a natureza humana, em sua manifestação instável e volátil, desagrada aos deuses rancorosos e autoritários. Kraspov descobriria sem querer, por que isso acontece e quais as verdadeiras intenções destas entidades.

Agente duplo

Por 4 décadas Kraspov serviu como diplomata na Índia, tentando conciliá-la com o vizinho Paquistão a pedido da ONU, sem sucesso. Enquanto arruma suas pastas e arquivos pessoais para ceder seu escritório ao novo diplomata, lia a nova designação que lhe atribuíam: colaborar com a Interpol e o FBI em uma investigação mundial sobre as atividades de grupos religiosos. Em anos passados, estas agências eram suspeitas para sua Mãe Rússia, a ex-URSS estava moribunda mas ele como agente do KGB devia manter vigilância e denunciar as atividades do Imperialismo Ianque em sua ganância de conquistar o mundo com seu sistema de opressão econômica e ideológica. Ele, mais que muitos de seus ex-camaradas, sabia que na República Socialista o que havia era o poder de uma burocracia e de tecnocratas ávidos pela mesma riqueza, poder e privilégios do capitalismo que condenavam na propaganda partidária. Ele sabia que tinha sido escalado para tratar dessa rixa religiosa desses países emergentes de terceiro mundo exatamente por esta consciência realista, anteriormente fora convocado para o programa da KGB em tentar controlar e coibir qualquer retorno das instituições religiosas na ex-URSS, logo percebendo a impossibilidade, diante da idolatria a Stalin, da deificação de Marx e consagração de Lênin como profeta e messias do sócio-comunismo. Enquanto a massa era conduzida pela propaganda partidária, os apóstolos do Marxismo usavam e abusavam dos privilégios adquiridos, piorando e agravando a situação social da mesma massa, iludida pela fé nesse novo catecismo. Por estes serviços, ele tem a consideração da ONU como especialista em organizações religiosas e as atividades clandestinas destas.
Na pasta entregue pelo adido da ONU, ele deveria reportar-se em Londres, com o agente Bacon da Interpol e colaborar com o agente Maxwell do FBI, que iria entregar-lhe o relatório completo até agora auferido das atividades de uma organização chamada Comando Tribulação, com sede suposta nos Estados Unidos, mas com ramificações pelo mundo todo. Isto incomodava o velho agente, iria colocá-lo a serviço de garotos com menos experiência e capacidade neste serviço de espionagem, mas como havia recebido de velhos amigos um aviso de que, na Rússia, as atividades religiosas estavam revigorando com velocidade assustadora, ele sentia por sua intuição que encontraria algo. Ele tinha conhecimento do reavivamento das igrejas ortodoxas na ex-URSS bem como o estranho ensaio de reaproximação entre as igrejas cristãs, depois de mais de mil anos de cisma resultando na igreja católica ocidental e na igreja ortodoxa oriental.
O novo diplomata era nativo do país, contando com a vantagem de conhecer ambos os governos e ser filho de diplomatas dos países em litígio. Ele conhecia, mais que qualquer especialista, as causas, os motivos e os ânimos que levavam a essa luta fratricida. Kraspov ficava grato por poder passar este abacaxi a um possível descendente dos que plantaram esta semente. Como bom agente, saiu do gabinete sem emoções ou memórias, seguiu os planos e os executou eficazmente. Seguia então para sua próxima missão com a certeza de ter cumprido, dentro de suas limitações e das especificações planejadas, com o intento que lhe conferiram. Feito relógio suíço, chegou ao aeroporto, embarcou e se deixou levar pelas asas prateadas da aeronave. Ele tomou um uísque com vodka e dormiu sossegado sabendo que seu treinamento iria despertá-lo ao chegar em Londres.
Perfeito, rotineiro, científico. Kraspov daria uma bela aquisição ao Instituto Dexter. Mas seus sonhos não ficaram povoados de fórmulas ou experiências, mas sim de vultos e corpos luminescentes em luta encarniçada, diante da qual ele tinha uma terrível sensação de risco, tanto a si como a toda a humanidade. Do lado luminoso ele conseguiu identificar o general do exército, graças aos inúmeros ícones que apreendera em sua mocidade na KGB: era Jesus, o Cristo, o Messias, o Filho de Deus, etc. Mas os outros combatentes, o lado sombrio conduzido por figuras que lhe eram desconhecidas, eles pareciam lutar pela liberdade de toda a humanidade, sem que ele soubesse seus nomes ou por que se dispunham a enfrentar esse terrível tirano por simples homens, símios evoluídos. Notou que se alinhavam ao lado de um ou outro, muitas pessoas, prontas a defender e apoiar o seu lado, o seu deus ou deuses, a sua causa, o objetivo sagrado que cada lado jurou. Ainda que não se sentisse atraído pela luz, também não conhecia a sombra, o que o colocava em conflito consigo mesmo, desfibrando sua alma a um lado e outro, esticando seu corpo e espírito a lados opostos e antagônicos, exigindo uma definição consciente, impostergável e irrevogável.
Ele não possuía qualquer princípio ou orientação espiritual, tudo que ele conhecia pertencia a esta pseudocerteza científica e toda sua pequena confiança estava nas teorias marxistas, custava-lhe aceitar, assimilar que estava não diante de um sonho, mas de uma realidade, uma dimensão mais abrangente que aquela que ele pateticamente elegeu como única. Precisamente ele, como muitos indivíduos deslumbrados com a sagrada ciência e os sacerdotes da matéria, simbolizava o estado de beligerância espiritual que a humanidade confortavelmente se pôs para conseguir manifestar sua identidade e personalidade, feito um adolescente mimado. Precisamente ele, que considerava inexistente a alma ou o mundo espiritual, vê-se afinal frente àquilo que teimosamente a ciência recusa-se a aceitar por incompetência ou incapacidade de perceber. Acabaram-se as fórmulas mágicas da física, química ou matemática, definharam as elucubrações biológicas, evolutivas, psicológicas e filosóficas. O porto seguro das enclopédias virou uma piada, não há leme ou bússola, apenas o imenso e inexpugnável Oceano da Eternidade. Agora é sua consciência solitária que navega sua alma nesta tormenta que se desenha no horizonte, aproximando-se veloz, faminta e feroz.
Livrou-se do juízo de sua alma que, revoltada, exigia rumo ao ser acordado pela comissária de bordo, chegara em seu destino mais frugal e mediato. Recompôs-se como pôde e seguiu até o escritório da Interpol, indo diretamente à mesa de Bacon discutir as evidências e estratégias da ação que deve ser tomada. Por este instante, com este bom motivo profissional, a alma se aquieta, a consciência retoma a direção e a mente consegue seguir sua rotina existencial. Mas mesmo o velho Kraspov teria algo a aprender, tal como Zeheler teve que arduamente acatar, de uma boa e bem brasileira bruxa.

Fantasmas brancos

Lugalu acaba de completar 18 anos e prepara-se para viajar até o Cairo para concorrer e cursar uma faculdade, deixando seus pais no Senegal e as missões evangélicas que tanto conturbaram a vida comunitária das cidades vizinhas, onde ele teve sua infância e rudimentos de educação. Enquanto aguardava o ônibus, ela lembrava de como era engraçada aquela inglesa protestante, tão branca, tão vestida, tão magra, de olhos azuis tristes e vazios, sem alegria ou prazer de viver. Lembrava das histórias que ela contava, da colonização, da civilização e do deus branco chamado Jesus. Lembrava de como os missionários protestantes interferiam nos rituais, desafiando os mais velhos e toda a tradição que vinha sendo respeitavelmente transmitida por gerações sem fim. Lembrava de como esta intromissão gerava muitas brigas, aumentando os conflitos que seu povo sofria. Muitos aderiram por ignorância de seu passado ou por ganância em ser branco, aumentando mais ainda as rixas, entre famílias, entre bairros, entre os diversos grupos missionários existentes na região. Por algum motivo, aceitar Jesus os transformavam em pessoas arrogantes e presunçosas, sempre em busca de mais destaque e distinção, buscando ter o mesmo poder dos brancos e do deus Jesus, para superarem suas deficiências e dificuldades.
Lugalu detestava os brancos, principalmente o deus Jesus, por estes deixarem seu povo ainda mais dependente, alienado e oprimido do que antes. A presença e as atividades dos grupos missionários apenas reavivava rixas tribais e incrementava os preconceitos entre os clãs, o deus branco veio para acabar o que a colonização inglesa não havia conseguido realizar por inteiro: o desaparecimento de seu povo, da identidade, das crenças tradicionais e da língua deste. Ela queria ver as estepes de seu povo realmente livres, felizes, tal como os velhos contam, daquela época em que seu povo era considerado uma criança, vivendo da terra e venerando os antepassados; onde todas as tribos e clãs conviviam em tolerância e respeito mútuo; onde os fantasmas brancos eram lendas usadas para assustar crianças levadas.
Lugalu esperava que no Cairo estivesse longe de tal presença e influência nefanda, ela sabia que no Egito o credo é o islamismo de vertente mais tolerante, ela conseguiria fazer seu curso de história com elementos mais reais sobre seu povo e os povos do passado. Pretendia na faculdade juntar todas as provas e evidências que conseguisse para enviar ao seu povo para que este se libertasse, dos brancos e do deus Jesus. Confiava nos seus antepassados e deuses antigos para que conseguisse despertar seu povo desse estranho ente e do domínio branco.
O ônibus parte, ansiedade e alívio tomam nossa menina africana. Ela nota entre os passageiros, gente de seu povo imitando os brancos e brancos tentando parecer sua gente. Tinham meninos transformados em evangélicos, em seus grupos liderados por um missionário inglês. Ela conhecia alguns deles e espantava-se em notar como todos se pareciam, no vestir, no falar, no sentar, no olhar. Muitos evitavam olhar para ela, por que ela os conhecia ou eles a conheciam e a tinham como infiel. Onde está agora o amor cristão? Onde está a propalada humildade, beatitude, caridade e bondade? Tudo não passava de propaganda, o amor ao próximo, não combina com a intolerância e fanatismo com que esses grupos tratam os não conversos ou as outras crenças. A pretensão de certeza e verdade que se julgam possuir os faz juízes e carrascos das vidas e hábitos alheios, perseguem os vícios que escandalizam sua mesquinha moral, constrangem aqueles que seguem suas vidas por conceitos diferentes, transformam atos humanos naturais em coisas criminosas, puníveis com rigor.
A vontade de Lugalu era de tomar outro ônibus ou levar esses evangelizados ao xaman mais próximo, algum sacerdote Yaroba para tirar esse espírito branco possessivo chamado Jesus. Ela sentiu suas mãos sendo afagadas, confortadas, sentia como se algo ou alguém pedisse a ela para ter paciência, que para tudo há um tempo certo. Levou sua mão esquerda até o patuá que recebera quando ela nasceu de sua avó, antes desta falecer, com o qual ela conseguia falar com os antepassados de sua família. Estava quente e exalando o cheiro das flores das savanas africanas, as savanas intocáveis e inacessíveis ao domínio branco ou evangélico. Por maior e mais terrível que seja o deus branco, sempre haverá um lugar que ele não irá entrar, sempre terá homens que honrem seu passado e suas tradições antigas, sempre haverá almas que não se dobrarão ao carrasco. Lugalu deixou-se levar pelo perfume e pelo calor, até as savanas sagradas, até os deuses antigos e ficou feliz consigo por fazer parte da maioria que resiste ao domínio do profeta do martírio, do deus branco da loucura.
Numa parada em alguma rodoviária durante o trajeto, Lugalu leu as notícias cada vez mais freqüentes de abusos cometidos por grupos ou indivíduos religiosos pertencentes ao deus branco Jesus. Num canto escondido, leu os nomes de Maxwell e Bacon, da coalizão de muitos grupos e agências de segurança que buscavam, com dificuldade, esclarecer tantos atentados terroristas e violências religiosas em tantos países diferentes, mas com os mesmos envolvidos: grupos cristãos, em especial os evangélicos. Ao lado, na prateleira da cafeteria, um dos passageiros evangelizados comprava eufórico um exemplar de um livro americano, para continuar a seqüência que lera antes, o título era provocativo: Comando Tribulação. Lugalu gelou, seu íntimo sabia que não havia coincidências, seja o que estivesse acontecendo com o mundo nos dias de hoje, com tanto ódio e perseguições religiosas, certamente envolvia algum grupo evangélico ou mesmo esse tal Comando Tribulação. Ela sentiu uma premente necessidade de procurar pela internet tudo que conseguisse sobre isso e localizar os agentes, para ajudá-los no que fosse necessário. Mal ela sabia que, naquele instante, diretamente do Brasil, uma bruxa de Alagoas, Rosângela, a colocava em contato com a corrente espiritual que iria finalmente enfrentar e esconjurar o Usurpador. Ela e Kelvin viriam a engrossar o alcance e eficácia do CR.

29 de abr de 2009

A sabedoria do inocente

Kelvin é um menino de 12 anos com sorte adversa a do jovem Bacon. Sua infância era conturbada pelas constantes discussões de seus pais. Ele, como muitos meninos irlandeses, tentava sobreviver aos constantes ataques de grupos radicais, católicos ou protestantes. Todo fim de aula tinha briga, sempre alguém apanhava e muitas vezes não era por diferenças religiosas, mas por diferença de torcida de time de futebol, ou por roupas e aparência, mas Kelvin geralmente apanhava por ser de pais quase separados, era filho de um possível divórcio numa sociedade extremamente confusa por causas religiosas.
Ele achava engraçada a forma como os livros didáticos mudavam conforme a opinião religiosa do diretor, notava a diferença entre os livros didáticos usados com os de 10 anos atrás e assim por diante. Ele cresceu acostumado com tal censura e distorção dos fatos, mas era esperto o bastante para notá-los. Ele conhecia histórias de meninos de outros países, da miséria africana a opulência norte-americana. Ele sabia que tinha sorte em muitos aspectos e uma tremenda má sorte em outros. Tentava dar algum sentido a todo seu sofrimento, causado por seus pais ou pelas brigas religiosas em seu país e seguia aos tropeços em sua infância fragmentada.
Como toda criança, adorava as pessoas, pelo que elas são. Adorava as meninas, o cheiro e as coisas delas, fazia de tudo por um abraço, um carinho, uma palavra de afeto, um beijo. Mas conhecia muitos meninos que gostava de meninos e meninas que gostava de meninas, em seu subúrbio era comum e chegava a ser considerado natural. Achava o amor a única coisa sagrada e bela que existia na vida que vale a pena se empenhar para conquistar e manter, por isso tinha tanta raiva de seus pais.
Ele tinha tudo planejado, sua adolescência, sua maturidade, faculdade, casamento, no caso de conseguir sobreviver para realizar tudo isso. Ele nunca entendia o catecismo nem os motivos por que Deus tinha tanta raiva de seus filhos para sempre castigá-los por errarem ou serem pessoas, tal como Ele as havia criado. Detestava os padres ou os pastores, pois sentia que eles eram os maiores responsáveis por tanta matança, ele decidira que sairia da Irlanda e iria aos Estados Unidos, tal como os Peregrinos, para lá tentar ter um pouco de paz e liberdade. Mas o cruel Jesus tinha outros planos para seu futuro.
Num dia de domingo, os pais de Kelvin não brigaram, como sempre faziam aos domingos de manhã. Os pais de Kelvin tomaram café, banho e se aprontaram como a uma festa, fazendo o mesmo com Kelvin, apesar de seus protestos. Eles estavam muito animados e esfuziantes, mal podiam esperar a chegada do seu irmão mais velho, que era considerado perdido por seu envolvimento com drogas. Ao tocar a campainha e aberta a porta, Kelvin não reconheceu o jovem que era abraçado com lágrimas pelos seus pais, mas tudo dava a entender que era seu irmão mais velho, a ovelha negra, que estava lá para uma ocasião especial. Seu irmão, de drogado, transformara-se em crente evangélico e queria levar toda sua família ao templo batista que freqüentava, para que todos ouvissem a palavra de Deus e igualmente fossem libertos de seus pecados e erros do passado.
De imediato, Kelvin achou se tratar de alguma brincadeira, no local havia pessoas evidentemente diferentes em aspecto, mas com modos e indumentárias muito iguais. Mesmo as crianças eram inusitadamente cópias dos adultos, os meninos e meninas ficavam sentados em lados separados, mas sem brincar ou conversar. Ele entrara uma vez em uma igreja católica com seus pais antes, notou que o templo batista não tinha os enfeites, os santos, os símbolos, as pinturas ou a via cruxis em suas paredes. Ele notou que os celebrantes não utilizavam os folhetos distribuídos em igrejas católicas, mas da consulta direta à Bíblia, mais um hinário próprio.
Em seus 12 anos, havia ouvido um bocado sobre a Bíblia e muitos padres, mas algo estava diferente, algumas partes da Bíblia usada na igreja católica não faziam parte desta, em muitos versículos haviam palavras ou interpretações distintas das que ele conhecera. Ele não era fã de poesia mas achou fraca, chata e quadrada a poesia que o hinário demonstrava em suas rimas. Mais assustador era a comoção que o pastor, em seu discurso, fazia com que ele, um simples menino, ficasse com vergonha de ser criança ou de viver como criança. Não era apenas o discurso inflamado que assustava, mas o olhar arregalado, a respiração bufante e o hábito de espalmar a capa da Bíblia com as mãos. Kelvin não via a hora de sair de perto deste louco e voltar às ruas de Dublin, mesmo em fogo cruzado, uma bala perdida era mais piedosa em seu impacto do que tal discurso, cheio de raiva e rancor.
Kelvin chegou a pensar que este pastor talvez tenha sido um menino tão infeliz quanto ele estava sendo. Mas os pais de Kelvin estavam estáticos, acompanhando como possuídos os cânticos, as rezas, as convulsões e os gritos de louvor da audiência, num frenesi, êxtase religioso, catarse ou qualquer outra palavra complicada que psicólogos adoram usar para fingir ser importantes e entendidos. Os pais de Kelvin haviam caído na emboscada mais antiga do mundo, na maior picaretagem explícita, na qual seu irmão foi um agente. Kelvin tem 12 anos, mas consegue ver perfeitamente que o tal templo batista usa e abusa das palavras de Cristo e da Bíblia para justificar suas atividades e que por tal serviço, uma contribuição era bem vinda, necessária e consagrada pela santa palavra.
Kelvin queria berrar. Havia a instituição do dízimo, mas não a de cobradores deste. Havia a santidade, mas não do policiamento desta. Havia um Deus e um caminho para chegarmos a Ele, mas não por outros homens nem pelos caminhos ditados por estes. Seu irmão se livrara das drogas ilícitas, mas não parecia menos entorpecido com esta droga espiritual chamada evangelismo. Seus pais pareciam dispostos a mudar velhos hábitos para salvar o sagrado matrimônio, mas isso foi previamente tentado pelos padres, com resultados terríveis ao casal e a Kelvin, sem citar que não haveria mais amor e sim amizade ou convivência tolerada. Kelvin tem 12 anos e só ele consegue raciocinar o óbvio no meio de tanto adulto que se considera com a capacidade, a autoridade e a competência para solucionar os problemas de vidas alheias.
Kelvin entrou em convulsão também, temendo pelo seu futuro e pela sua saúde neste meio insano. Os presbíteros imediatamente o cercaram, com orações e exorcismos, enquanto seus pais acompanhavam ao longe o trabalho deles. Kelvin estava semiconsciente, sabia que se não fosse levado ao hospital ele certamente haveria de morrer por falta de atendimento médico, como havia ouvido falar centena de vezes nos boatos do povo. Ele era uma criança nas mãos de loucos e estava morrendo, estava para ir ao local onde estas religiões tanto falam, o Além.
Os adultos falam tanto disso sem considerar que, para entrar é preciso amar primeiro a natureza, segundo a humanidade e em terceiro conviver. Pena que adultos só saibam falar, não realizam. Falam tanto de Deus, mas abusam dEle para satisfazer seus mais mesquinhos propósitos. Falam do mundo espiritual como se isso fosse algo estranho e aquém do mundo material, quando são partes da mesma realidade: a divina.
Kelvin tem 12 anos, mas sabe mais que muitos padres ou pastores, tem mais espiritualidade que muitos líderes religiosos, está mais próximo de Deus que muitos profetas. As crianças são mais adultas que muitos adultos. Depois viram adolescentes e tornam-se repetições de erros paternos ou revivem relíquias morais de seus avós. Morrem na idade adulta e, por melancolia, tentam arrastar o resto da humanidade consigo.
Um vulto quebra a barreira dos presbíteros e retira Kelvin de lá, de dentro do templo batista, para a segurança das ruas. Recobrando aos poucos a consciência, Kelvin nota seus salvadores: um menino homossexual de 15, uma menina prostituta de 16, e um terceiro menino que nunca tinha visto.
-Não tema. Nós estamos do seu lado. Tudo vai ficar bem. Essa insanidade vai acabar.

Estratégia

Em um pub, o jovem Bacon comemora com seus novos colegas sua nomeação como agente da Interpol, com boa bebida e música folclórica. No fundo do pub, o seu futuro chefe o chama para sentar-se na mesa onde ele está. Mas a intenção de seu chefe não é de conhecer ou fazer amizade com o novato, mas de entregar-lhe a primeira missão: ajudar o FBI na investigação de casos suspeitos que envolvam grupos religiosos.
Bacon é um católico comum, numa palavra: um católico banho-maria, que freqüenta as missas sem nunca se envolver demais na vida ecumênica. Ele sabia, como bom inglês e candidato à vaga na Interpol, das atividades do IRA, estando pronto e disposto a desarmar este tipo de terrorismo religioso que ainda abatia a Inglaterra. Ele tinha suas opiniões, sabia as táticas usuais para coibir tais ações e tinha formação religiosa firme para resistir às propagandas dos separatistas protestantes irlandeses.
No dia seguinte, sobrevivendo ao batismo no pub e uma ressaca monstro, se pôs a analisar o dossiê entregue por seu chefe, pronto para arregaçar as mangas. No relatório pôde constatar com satisfação o nome de um conhecido de academia: Maxwell, quando ele esteve estudando os métodos do FBI nos Estados Unidos. Mas assustou-se ao ler algo a respeito de uma tendência mundial, o neopentecostalismo, uma denominação protestante que vem crescendo assustadoramente, com grupos clandestinos e armados em várias partes do mundo. Não gostou do tema levantado quando o dossiê tocou no cristianismo, mas ficou curioso quanto ao nome do grupo americano que tem se espalhado por muitos países com sucesso: Comando Tribulação.
Ele lembra de ter lido ou visto algo similar em algum lugar, partiria sua investigação por averiguar donde vinha tal nome e como tal organização se estruturava. Apesar dos muitos documentos relatando as atividades e as suspeitas do FBI quanto a esta organização, ele queria verificar e evidenciar com bases mais reais as suspeitas. Sobretudo de como tal organização vem se infiltrando em outras organizações religiosas de cunho protestante, em especial o IRA.
Bacon teve uma infância britanicamente normal: escola, academia, catecismo, novenas e festas católicas eram parte de seu mundo, de seu universo, de seu próprio sentido como homem, dentro da essência de uma existência material humana. Não era fácil manter sua fé no meio acadêmico, com tantos filósofos, historiadores e os diferentes grupos de crenças que os cadetes professavam. Em muitos casos, ele evitava falar do assunto ou entrar em discussões, mesmo quando provocado. Em suas nebulosas memórias de infância, ele sentia uma certa inveja dos outros meninos, em seu subconsciente lutava com o rancor e o remorso de não ter tido a chance de viver uma infância humanamente normal. Recalcava no fundo de seu íntimo a lembrança do incômodo dos rituais católicos, com aquela cantoria arrastada e palavras repetidas sem um sentimento ou importância espiritual, tentava afastar aquele fantasma da novena onde ficava mais visível o ritmo burocrático, vazio e sem alma das celebrações da igreja católica. Os ritos mais pareciam um festim de zumbis, moribundos e mortos.
Disfarçado, procurou então uma igreja evangélica para ver qual a grande diferença, tentar descobrir o por quê tal credo se distingue e tentar encontrar indícios que pudessem demonstrar aquilo que o dossiê denunciava. Num extenso trabalho de campo notou uma curiosa diferença de mensagem dos pastores, de acordo com o local ou o nível social em que a igreja se instalava. Em meios ricos, mensagens estimulando e elogiando a prosperidade; em meios pobres, mensagens insistindo no arrependimento dos pecados e mudança de hábitos. Sendo católico e pelo menos tecnicamente um cristão como os protestantes, ele achou curioso as diferentes interpretações e enfoques que eram dados da mesma fonte sagrada: a Bíblia Sagrada.
Em seus 20 anos ele fez algo que muito católico não fez em toda sua vida: leu a fonte, ele achou diversas versões ou traduções, vários livros que a usavam como base doutrinária e com ajuda de um amigo leu a torah, a fonte mais antiga. Não solucionou suas dúvidas, apenas as multiplicou. Quando recorreu a fontes históricas ou arqueológicas, suas crenças de infância foram sendo minadas por evidências gritantes de engano, incorreção ou distorção dos fatos.
Quanto mais pesquisava os fatos e ouvia os pastores em suas perorações, mais se afastava de suas crenças, mais cético e ateu se tornava. Foi quando notou que estava sendo acompanhado, investigado, seguido por outros agentes desconhecidos. Como um integrante da Interpol, não reconhecia as táticas nem os uniformes, fossem quem fossem, não eram de agências de inteligência. Seu estudo em táticas de guerrilha, disfarce e dissimulação lhe foram úteis, desvencilhou-se dessas sombras com facilidade, o que deixava evidente que se tratavam de amadores ou eram integrantes de alguma das milícias que Maxwell tanto citava no dossiê. Reverteu o quadro e conseguiu isolar um de seus perseguidores do restante do grupo, que assustado apenas repetia clichês religiosos.
-Quem é você? Por que está atrás de mim?
-Afasta-te de mim, agente de Satanás! Eu sou protegido do Filho de Deus, sou um soldado do Exército do Cordeiro e sabemos que está nos investigando a mando de seu infernal patrão!
Os detalhes da tentativa de diálogo não são relevantes, apenas os documentos de uma pasta que Bacon apreendeu do relapso agente mais alguns livros. A esperada Bíblia, na versão protestante e um livro de autores americanos, que vem se tornando um sucesso: Deixados para trás.
Bacon não analisou o exemplar da bíblia que tomou das mãos do crente, mas tomou um considerável tempo para analisar a obra americana, em todos os exemplares escritos pelos autores, como uma seqüência do que seria a vida de um grupo após o Grande Arrebatamento, numa época que é definida como Tribulação, onde o Anticristo surgiria e ascenderia ao poder absoluto na Terra. O livro abusa da escatologia contida no Livro das Revelações, do Novo Testamento, com autoria dada ou presumida ao apóstolo João.
Os livros destes autores americanos eram literariamente bem escritos, mas continham evidentes erros de argumentos, roteiro forçado e situações estapafúrdias que apenas alimentavam uma teoria de conspiração paranóica. Os livros eram coerentes com o pensamento do protestantismo, em especial dos setores mais rigorosos quanto à ética e a moral. Os autores tiveram um bom senso de oportunidade comercial em lançar estes livros, num momento de insegurança e confusão entre os homens, sem evidentemente colocar ou lembrar que a conjuntura mundial atual é conseqüência de fatores sócio-econômicos e político-culturais diversos.
Mas por que agora tal obra? Havia uma intenção neste investimento, neste patrocínio para avivar as neuroses, paranóias e complexos que afligem a humanidade desde seu surgimento?Dissecada tal obra de terrorismo psicológico, Bacon iniciou com a apreciação dos documentos, com datas, nomes, endereços e interessantes códigos. Animado com o achado, tratou de enviar uma cópia ao seu dileto amigo ianque, Maxwell, que certamente iria ter um bom proveito e garantiria que tais evidências não sumissem caso ele fosse deletado.

Complô

Eu mudarei o foco para o agente do FBI, Maxwell, em seu escritório numa delegacia do FBI em Chicago. Informes de várias partes do mundo davam a ele uma perspectiva aterradora, a segurança nacional, de cada país, fornecia evidências e suspeitas de que estava havendo uma estranha coalizão das diversas vertentes do cristianismo, muitos crimes envolvendo uma organização ou outra. Diversos setores da sociedade demonstravam um estranho conservadorismo, reacionarismo, fanatismo, moralismo e coação aos direitos individuais, em muitos termos.
Ele recebera o informe do dr Batista sobre o ocorrido com o artista do CR, Wanderley, entretanto em outros países houve casos mais sérios, mais violentos e mais traumáticos. Ele também viu o relatório do atentado contra o IML no Rio, porém diante dos testemunhos de vítimas de atentados em outras partes do mundo, envolvendo radicais religiosos e organizações clandestinas cristãs, o caso do Rio era piquenique.
Em muitos países, cientistas eram ameaçados ou forçados a se calar, eram forçados a encerrar as atividades de seus laboratórios; arqueólogos sumiam ou morriam em circunstâncias suspeitas, sobretudo se investigavam sítios em locais considerados sagrados. Em escolas, os professores viam abismados os livros didáticos serem substituídos por livros mais adequados dentro da perspectiva religiosa do diretor ou de grupos ligados a igrejas. Aulas eram vigiadas por grupos uniformizados, milícias paramilitares formadas pelas organizações religiosas locais, flagrantemente ligadas ao cristianismo. A vida dos alunos, as atividades extracurriculares, familiares ou sociais eram tolhidas, havia censura prévia aos espetáculos e o acesso à informação era restringido. Viver de forma normal, saudável e alegre estava dificultado por grupos jovens ligados a denominações cristãs, que voluntariamente vigiavam e delatavam qualquer atividade, atitude ou pensamento que fosse diferente ou suspeito contra os princípios cristãos.
Em muitas cidades, num absurdo abuso de poder e arbitrariedade, promulgavam-se medidas a cercear a liberdade religiosa de grupos não-cristãos. A guarda civil, engrossada e armada por elementos ligados a milícias religiosas, perseguia indivíduos por vadiagem, por prostituição, por bebedeira, por vestuário ousado, por preferências distintas do que era considerado saudável nos preceitos cristãos.
Maxwell estava assustado e impressionado com tais ações. Seu pai tinha lutado na 2ª Guerra Mundial e ele contava muitas histórias horríveis ouvidas dos sobreviventes do nazismo e do fascismo. Nem Hitler nem Mussolini sequer ousariam imaginar tanto sangue frio e crueldade quanto o cristianismo tem sido capaz de infligir à humanidade desde sua ascensão como sistema religioso.
Enquanto era apenas uma excentricidade de um profeta louco, um carpinteiro impressionado com os conhecimentos esotéricos que aprendera em seu auto-exílio e tomado pela paixão da missão que se propunha a concretizar, em nada diferia dos inúmeros profetas, messias ou alegados filhos de deus que apareciam na época. Mas exatamente e por causa das circunstâncias que este louco se deixou levar, coroou com êxito os seus intentos masoquistas e fantasias espirituais, misturados com uma premente necessidade de expurgar por martírio sua condição humana, a fim de justificar sua pretensa origem divina.
Num meio sofrido, pobre e ignorante, suas mensagens recheadas de poética pastoril e um amálgama de símbolos esotéricos serviu feito cabresto ao asno que busca uma razão absurda para sua existência oprimida. Mais esta estranha mania romântica da população carente a admirar e idolatrar os perseguidos, os revolucionários e os considerados bandidos pelo sistema opressor.
Do início ao terrível fim, ele seguiu conforme uma psicótica estratégia lógica. Seus monólogos eram inteligíveis e vagos o suficiente para dar a impressão certa a sua audiência de que ele era um profeta, senão o próprio filho de deus. Seus truques de prestidigitação eram planejados, executados e bem sucedidos diante desta platéia idiota. Qualquer um que tentasse algo sequer parecido hoje em dia seria imediatamente recolhido ao manicômio.
Ele soube dos famosos pergaminhos de Zeheler e procurou entre seus conhecidos e contatos na Mossad se tais pergaminhos realmente existem e o que eles continham para ser tão especiais. Pesquisou e perguntou a todos quantos conhecia sobre as antigas tradições, sobre a religião da Deusa e o que se poderia esperar desse ressurgimento. Com um pouco de tempo, Maxwell teria respostas bem claras, ainda que não fossem as esperadas e ele não estivesse preparado para assimilá-las.

Lei de Murphy

Zeheler, apesar de suas atividades e aventuras com o CR, continuava com seu expediente normal no Laboratório Politécnico. Muito acontecera nos últimos dias, algo mudara em seus costumes, contrariando o velho ditado que não se ensina truques novos a cachorros velhos. Aquele velho cientista cheio de tiques, toques e manias parecia um menino com brinquedo novo. Não havia mais queixas, birras ou a velha melancolia cheia de pânico e cisma. Os seus colegas de serviço espantavam-se da disposição e vigor que ele demonstrava, cessando de vez o mau-humor e os discursos neuróticos cheios de teorias conspiratórias. Ao invés dos murmúrios cheios de rancor, piadas e conversa boa. Aos pequenos cientistas a conclusão era óbvia, ainda que injusta: Zeheler esclerosara de vez. Isso é comum, após certo enraizamento das opiniões alheias sobre nós e sobretudo das expectativas destes a nosso respeito.
Meio fora do contexto, mas propositalmente inserido, explico com o exemplo de nosso atual presidente, Lula. Na campanha eleitoral, seus adversários o pintavam como um perigoso revolucionário, mas a população cansada desse jogo eleitoreiro confiou na intuição e o empossaram no cargo de presidente da república. Nisso começa o problema, lembrando a lei de Murphy que prevê que a virtude constitui seu próprio castigo, nosso presidente formou na opinião popular um quadro e uma expectativa além das possibilidades objetivas. Agora, os mesmos que o atacavam como sendo um radical, o atacam com insinuações infundadas de que nosso presidente está moderado ou liberal demais, os defeitos todos que vieram do governo anterior passaram a ser defeitos desta gestão. Existem setores de grupos da sociedade insatisfeitos e descontentes com a perda de certos privilégios, os mesmos setores que cobraram por mudanças e mais justiça social. Existem mais detalhes e confusões, mas eu fico satisfeito pois, o Brasil nessa situação é o melhor exemplo de que a teoria de Marx é uma ilusão, mais outro catecismo elaborado para satisfazer a necessidade humana de crença. Vamos sintonizar em Zeheler? Eu deixo aos que pensam e raciocinam o encargo de acabar com o romantismo ideológico, eu dei suficientes colaborações.
Nos intervalos de seu trabalho, Zeheler telefona para diversos conhecidos e parentes distantes, com o intuito de conseguir o máximo de pergaminhos iguais ao que ele possuía. Mais uma boa surpresa, pois como se diz por aí, família é tudo igual, só muda de endereço. Quem dos presentes tem uma família ideal e sem grilos que grite, pois deve estar fora desta realidade. Bem, deixo este mito para detonar mais tarde. Zeheler, apesar dos pesares, conseguiu um razoável contato e conversou com parentes, pode matar a saudade de velhos amigos e conhecidos. Tantas pessoas, com objetivos e sonhos tão distintos, mas movidos por uma misteriosa vontade de ajudar, auxiliar nosso cientista, formaram uma rede fina, porém fortemente unida, com o propósito de reunir tantos pergaminhos quantos possíveis.
Em São Paulo, Miranda sentia uma estranha sensação de estrangulamento, estava nervoso, inseguro e amedrontado com algo absolutamente irracional e invisível. Seus dias estavam amargos e sombrios, perdera o ânimo e a disposição, era constantemente acossado por pesadelos terríveis de um julgamento colossal, onde via seu estimado Cristo na mesma posição de réu. Mesmo tendo que cuidar da volta do Messias, tendo que enfrentar a resistência das fileiras cristãs e derrotar os seguidores das demais religiosidades, ele estava apreensivo como um pré-vestibulando nas vésperas da temida prova. Ele tinha certeza de que seria cobrado por seu patrão por resultados em breve e tinha calafrios em imaginar as conseqüências das ações que aplicavam. Mas tal como sua entidade escolhida e divinizada, ele estava ocupado demais com seu orgulho e vaidade, estava tolhido e domado pela missão, pela grande causa sagrada, não mediria esforços para lograr êxito.
Miranda teve um espasmo, um estertor incontrolável ao entrar em seu escritório particular, havia uma pessoa dentro, de tal figura e imponência que era claro e evidente sua posição como servo do Senhor, um anjo, enviado para ouvir o relatório da missão. Nem os milhares de devotos, colaboradores ou poderes dos quais ele se encontrava empossado serviriam para enfrentar, enganar ou afastar este cálice. Ele sabia que estava sozinho e devia passar por este Monte das Oliveiras com a mesma audácia e firmeza de seu Senhor.
Do outro lado da porta do escritório de Miranda a Comunidade Luz de Jesus, sentindo a presença deste ente, paralisou tal como a naja hipnotizada diante de seu manipulador. Não muito longe, Rosângela tinha suas visitas, com mais boas noticias e motivos de júbilo que seu adversário. Começava a corrida final para o trono da Terra, em todo o mundo espiritual havia uma corrente forte e extensa para que houvesse o desmascaramento do Cordeiro. Os pergaminhos antigos, as Memórias dos Filhos dos Deuses, escritos pelos sumérios em cópia fidedigna do que lhes passaram os antigos deuses, contendo toda a verdade, estavam para serem reunidos mais uma vez.

Messianismo marxista

Wanderley e Emanoel estavam sossegadamente lembrando dos tempos de faculdade quando foram assediados por dois grupos, igualmente fanáticos, embora diametralmente opostos em seus objetivos: um grupo de evangélicos e um grupo de militantes marxistas. Eu dispensarei os detalhes do contato que tiveram com o primeiro grupo, pois o próprio discurso usual desses grupos é evidentemente patético por si. O mais triste é ver tanto jovem desperdiçar sua energia e vitalidade em algo tão sem sentido, por inúmeros motivos preferem a alienação a uma ação prática de cidadania, preferem a ilusão a uma vida presente, necessitam mais acreditar do que mobilizar sua comunidade. Mas o segundo grupo é mais curioso, ainda que não menos deslumbrado e alienado, por outros dogmas e doutrinas. Estes grupos, em suas particulares visões sobre ética e virtude, conseguem ser mais conservadores e repressores que seus pares religiosos.
-Companheiros! Votem em Zé Ruela, o representante do povo!
-Quem o nomeou?
-Na assembléia do PCO, nós, o povo, o escolhemos para representar os interesses do proletariado!
-Nós quem, cara pálida? Quando o proletariado foi ouvido para que este manifestasse seu interesse? E o que nós temos com este ente misterioso e místico?
-Companheiro, que decepção! Eu o tomava como uma pessoa inteligente e informada, mas vejo que está alienada pela elite burguesa dominante! Não é possível que o companheiro não conheça a causa operária!
-Não fique chocado, pois eu também o tomava por pessoa inteligente. A chamada causa operária vem de onde?
-De Carl Marx, que em sua análise O Capital abriu os olhos dos oprimidos para a realidade em que viviam até então.
-Ou seja, mais um profeta louco obteve uma sagrada revelação que conduziria os oprimidos ao Paraíso.
-Isso não é brincadeira! A tese de Marx é científica!
-Você tem evidências? Quais as amostras ou fontes que Marx usou para tecer sua teoria? Como, quando e por que ele se tornou um privilegiado operário, proletário ou oprimido, sabendo que ele, por sua formação e origem, seria considerado burguês pelo seu próprio crivo?
-As evidências estão em nosso redor, na realidade em que vivemos, basta um pouco de raciocínio para ver que as teses de Marx estão corretas!
-Será? Então vejamos! Desconsiderando este incrível milagre que transformou um burguês no autor e consumador da teoria que libertaria os oprimidos, qual a origem da formação das classes sociais?
-Da concentração de renda, pela expropriação do trabalho do operário.
-Quer dizer que só existiu trabalho na presente era? E como as coisas eram produzidas antes?
-A expropriação do trabalho alheio existiu em outras eras, com outras elites no poder.
-Sempre a relação de trabalho foi de domínio de uma classe sobre outra?
-Segundo o Materialismo Dialético Histórico, inaugurado por Marx, nas sociedades primitivas a produção e riqueza eram de posse comum.
-Aleluia! Os marxistas estão querendo que a sociedade moderna arraste-se novamente feito os homens das cavernas!
-O sr não está entendendo! O que lutamos é por uma divisão justa da riqueza!
-O conceito do que é justo está muito confuso. O que fez progredir a sociedade humana? A vida harmoniosa em comum dos antigos? Decerto que não! A sociedade humana teve seu progresso inicialmente pela divisão de tarefas, que é por si uma desigualdade. Segundamente, progrediu não pela posse comum de bens ou meios de produção, mas sim pelo domínio de um grupo sobre outro.
-Então o sr concorda que existem diferenças de classes?
-Atente que meu conceito é de domínio de um grupo, não de uma classe. Este conceito não passa de um mito, como vou provar.
-Isto eu quero ver!
-Posto que temos que analisar a realidade, como explicaríamos tantas eras de domínio de um grupo sobre outro?
-O monopólio da riqueza proporciona poder, para impor leis e condicionamento através da educação.
-De que forma a riqueza concede poder? Simplesmente pela vontade e ambição destes mesmos oprimidos em ser idênticos aos seus dominadores. Eis aí a razão que se esconde e nunca será admitida pelos partidos socialistas ou comunistas. O tal paraíso do proletariado nunca se realizará porque o ideal de vida deste proletariado é viver como o burguês.
-Isto não é verdade! Somente a opção comunista trará a igualdade, a fraternidade e a liberdade tão sonhada!
-Agora quem foge da realidade é o sr. A sociedade humana está tão desenvolvida que é impossível sua manutenção sem a divisão de tarefas. Por melhor e mais bem organizado que seja um sistema, este tenderá ao colapso pela falta de condições naturais, pela superpopulação e pelos conflitos de objetivos que cada setor terá. O sr deve lembrar que na Inglaterra, a revolução industrial produziu a organização dos operários em sindicatos. Pois bem, com o sucesso da industrialização os sindicatos cresceram, dando lugar a objetivos e exigências de cada sindicato, defendendo o seu setor. Como isso é possível, se pertencem à mesma classe, segundo a teoria de Marx? O que prova que a classe operária não existe. Quantas guerras tiveram entre os chamados burgueses? Isso é impossível de se combinar, caso fossem pertencentes à mesma classe. O que prova que a classe burguesa não existe. A teoria de Marx é boa, mas não a melhor.
-Ah, eu vejo que o sr é mais um agente do Imperialismo Americano que tenta manter a classe operária na eterna sujeição. Eu lhe digo: não mais! A classe operária se erguerá e tomará o poder!
-Certamente, não faltarão santos e profetas que a conduza para o dourado paraíso do comunismo. Geralmente se abusa de clichês e frases emprestadas para provocar a comoção popular. Eu gostaria de saber o que será dessas privilegiadas cabeças pensantes, quando tal classe operária cansar-se de ver que apenas mudou o senhorio. Cuide de seu pescoço, para não se tornar um novo Danton.
-O sr está cometendo uma distorção da visão histórica! A revolução francesa foi burguesa!
-E não vejo no que foi diferente a revolução bolchevique. Talvez apenas o sr, em sua privilegiada visão da realidade, consegue achar racional o que defende com o que de fato foi implementado na ex-URSS. A Liga Heloísa Helena que não me ouça, mas este tipo de discurso apaixonado e cheio de romantismo ideológico não é diferente dos que ouço de grupos religiosos afins, em sua privilegiada visão espiritual. Onde está o fim dos privilégios que tanto ostentam? Todos os grupos resumem-se nisso: lutam para conquistar o poder e a riqueza de uma classe e um sistema que condenam. Não buscam a justiça, mas o rigor diante de preconceitos impostos. Não buscam a igualdade, mas a generalização, a mediocridade e a banalização.
Eu poderia continuar indefinidamente, dando mais detalhes e patadas, mas geralmente qualquer tentativa de se ter um diálogo minimamente civilizado com tais criaturas produz apenas irritação, fanatismo e muito palavrão. Eu creio que é suficiente para explanar meu ponto de vista, que cada um faça o que bem entende dele. Chega e paz!

Comando Tribulação

Eu voltei! Não é nada fácil inventar. Escritores não inventam estórias, as roubam de realidades alternativas. Eu estou lhes trazendo, com risco de vida, alguns arquivos interessantes. Uma vez que o monstro tem suas reuniões, acordos e colaboradores, nossos heróis também as têm. Vejamos agora o que pude lhes trazer das reuniões que o Círculo Racional teve com os agentes da FBI.
Os integrantes do CR obtiveram um chamado do dr Batista para uma reunião e relatório da situação fora do Brasil, com informes sigilosos e clandestinos do agente Maxwell, do FBI.
-Senhores e senhoras do CR, eu devo lhes dizer o que eu sei, lembrando-os que esses dados devem ser mantidos no mais absoluto sigilo. Estes dados são classificados como altamente secretos, jamais devem ser citados fora de nossa companhia.
-Eu falo em nome de todos os integrantes do CR, estamos todos cientes das condições e riscos que tais informações devem ser consideradas.
-Certamente, mr Batista. Eis os fatos: a Comunidade Luz de Jesus é a denominação evangélica cristã que está representando o Comando Tribulação no Brasil. Infelizmente, as atividades ainda não estão comprovadamente vinculadas, nem possuem atos criminosos evidentes.
-Nós sabemos das dificuldades. O monstro sabe encobrir suas atividades, o sistema e o modo de operar por meio de colaboradores eventuais evitam que se prove tais vínculos criminosos. Mas e esse tal Comando Tribulação? Ele tem outras organizações religiosas colegiadas a ele? Qual o impacto dessa organização pelo mundo?
-Mr Cervantes, eu confesso que estou assustado e horrorizado com as evidências que tive com as demais polícias do mundo todo. Mesmo sem podermos provar ou denunciar as operações desse Comando, é extremamente preocupante, tal a forma e conseqüência da presença deles nos demais países, através de agentes regionais.
-O sr Max pode nos oferecer um resumo da situação mundial?
-Certamente, senhora Rosângela. No intuito de cristianizar o mundo inteiro, o Comando não tem limites nem ética. Tal como seus predecessores, fomentam a miséria, fome, doenças, instabilidades sociais ou políticas. Instaurado tal caos artificial, as pessoas tomam a situação em que vivem como um castigo e procuram ajuda espiritual. Como previamente os centros missionários das igrejas evangélicas estão operando em acordo e conluio com os poderes seculares, estes centros tornam-se seguros, as pessoas encontram proteção e conforto espiritual. Não é necessário dizer que, uma vez dentro, fica imensamente mais prático e inevitável fazer uma reprogramação mental das pessoas. Em pouco tempo, os visitantes transformam-se em membros ativos, militantes, soldados da grande causa sagrada cristã.
-Quer dizer que, a situação de penúria e violência mundial são provocados ou patrocinados por ações indiretas desses grupos religiosos?
-Indiretamente, em alguns casos, dependendo de certos fatores, podemos afirmar isso. Ainda não conseguimos entender como tal aparelho funciona. As pessoas não são forçadas a aceitar a religião cristã, mas de certo modo acham que seus governantes e deuses não os estão ajudando num momento de dificuldade. Identificam estes como responsáveis pelo estado da conjuntura, ignorando as responsabilidades devidas.
-Parece dejá vu! As pessoas estão repetindo o erro que os romanos cometeram.
-Isso é mais grave do que parece, senhora Sandra. O caso de envolvimento do Vaticano com o Nazismo foi apenas uma ação que foi conduzida sem o cuidado e sigilo exigido. Quantas ações seriam postas em público, caso o Vaticano realmente abra seus arquivos? Eu tenho arrepios só em tentar visualizar a comoção mundial!
-Poderia nomear as suspeitas, para os casos conhecidos?
-Evidentemente, mr Zeheler. Eu citaria o caso das constantes brigas entre madeireiros e nativos das regiões de florestas. Muitos missionários evangélicos vão nesses locais para evangelizar, civilizar e sociabilizar estas tribos enquanto provém o aculturamento, as doenças e a violência psicológica. Alguma dúvida que os madeireiros estão ali pelas expensas e ordens dos mesmos missionários que dizem ter vindo salvar os nativos? Qual o interesse dos missionários? O mesmo dos cristãos originais: formar riqueza pela posse da terra, devidamente consagrada ou alugada aos grileiros, madeireiros ou fazendeiros que, obviamente, confessam a fé cristã. Com este simples vínculo, estabelece-se um sistema, sem que os nativos ganhassem coisa alguma, senão a perda de sua identidade. Resultado? Riqueza para as organizações evangélicas, lucro aos usurpadores da terra e morte aos nativos.
-Que horrível!
-Isto não é o pior. O sr, como hebreu, deve sentir muita confusão e medo com a guerra entre Israel e Palestina. Não pense que brigam por posse, por direito sagrado, por água ou petróleo. Ali existe uma guerra financiada e patrocinada por grupos evangélicos e pelo Vaticano. Qual o objetivo? Aniquilar os povos locais para que a terra seja exclusivamente dos cristãos. Como o fazem? Adivinha quem realmente está fornecendo armas e sustentação financeira aos grupos radicais, de um lado e de outro? Exatamente o mesmo grupo que aproveita tal carnificina para fazer propagandas pela paz e união entre os povos. União e fraternidade cristãs.
-Isso é demais.
-Alguma hipótese sobre o fracasso da União Soviética? Sem dúvida, pelo próprio sistema que foi criado pelos bolcheviques, empossando uma máquina pública burocrática, cega e sem objetivos. Mas o golpe de misericórdia foi sendo ministrado aos poucos, como um veneno, pelas igrejas ortodoxas que estavam fartas de receberem migalhas enquanto sua prima ocidental ostentava exuberância. Alguma coincidência que estas igrejas agora tentam reatar e reaproximar, depois de serem rivais e inimigas durante tanto tempo?
-Disto para chegar ao óbvio que as eleições, principalmente em países de terceiro mundo, são um resultado orquestrado pelo poder religioso, é necessário mostrar alguma evidência?
-Não, sr Wanderley. Não somos muito bem informados dos detalhes do sistema eleitoral do Brasil, mas certamente fica evidente pelos resultados e efeitos reais que as teorias de Koprotskin estão corretas. Independentemente de qual candidato ganhe, vai reger a mediocridade, sem que se altere o aparelho do sistema. Ou os senhores e as senhoras realmente estão surpresos com o fiasco do governo atual, dito trabalhista ou socialista?
-Cheeega! Quando isto vai acabar? Quando aprenderemos? Quando vamos tomar as rédeas de nossos destinos em mãos?
-Sra Sandra, lamento, mas existe um sério problema para os brasileiros: muito conformismo e comodismo. O brasileiro tem excesso de malandragem e molecagem. O mal do brasileiro é seu amor à Pátria, mas não aos brasileiros.
-Falta educação! Leitura! Cultura!
-O nível educacional do brasileiro é excepcional, considerando as condições. Os brasileiros lêem bastante, mas não se prestam a considerar o conteúdo do livro. Eu pessoalmente não conheço povo com cultura mais variada e rica que o brasileiro, mas até isso serve como válvula de escape! O problema é complexo, eu diria espiritual.
-Disso, nós bruxos damos conta.
-Assim espero, sra Rosângela. Eu e meus colegas temos muitas dúvidas e suspeitas, mas bem que seria bem vinda uma doutrina que nos desse uma boa bússola! De preferência uma que não seja deturpada pela moda, pelo poder, pela ganância ou pela riqueza.
-Quer apostar?