2 de mai de 2009

Ação missionária

Lugalu retorna ao povoado de onde ela saíra para cursar a faculdade em Cairo, procurando por algum ilisi que conheça a fim de se aproximar da tribo e descobrir quem está por detrás de tantos conflitos tribais.
Eu preciso perguntar a ela por que afro-descendentes pelo mundo têm tanto complexo de vítima e paranóia de perseguição por parte da dita sociedade branca quando em seu continente existem os mesmos tipos de violência e perseguição entre indivíduos da mesma etnia? Eu imagino que seja pelos mesmos motivos que a então Europa se vê em meio a guerras civis entre o que era outrora o povo de um país: a renovação de um estúpido patriotismo e de um fanatismo nacionalista, ressentimentos tribais que afloram em uma massa ignorante que perdeu toda sua humanidade, algo que em escala reduzida se vê em nossos estádios de futebol, quando acontecem brigas entre as torcidas organizadas: bestial tribalismo primitivo.
Lugalu toma dois garotos quaisquer, vestidos com camisetas rasgadas e puídas, que rondam pela rodoviária à espreita de turistas distraídos, algo que também conhecemos muito bem em nossas cidades. Todos entram num ônibus que mais parece peça de museu, mas que tem dado conta do precário sistema de transporte local, para atravessar uma extensão cruel e imensa sob um calor médio de 40º C, para todas as pessoas que vivem em povoados pela região, algo que ironicamente se repete por aqui.
Durante a viagem ela pode aproveitar para recordar suas memórias de infância, enquanto essa nau do deserto cruza a savana Zetegi, um lugar onde ela passou boa parte de sua vida e consegue imaginar como deve ter sido igualmente árduo e traumatizante aos Primeiros para atravessarem as Pradarias da Eternidade. Ao chegar na tribo ilisi é direcionada pelos garotos para o ancião conhecido como Velho Gumo, um senhor que ela tinha como seu próprio avô e tinha passado uns anos sem que ela o visse ou tivesse notícias dele.
-Lugalu, minha neta, é você? Como você cresceu! Como ficou bonita! Venha, venha dar fim na saudade deste velho.
-Velho Gumo, meu avôzinho! Quanta saudade! Sim, eu cresci e entrei na faculdade do Cairo. Eu vim até aqui para ver o porquê de tanto conflito entre nossa gente.
-Ah, minha neta, isso é coisa do Diabo Branco, esse vapapu pendurado nas traves, trazido pelos missionários.
-O sr tem certeza disso? O vampiro Cristo veio pelos missionários? O tumulto tem sido causado por causa da presença deles?
-Sim, sim! Quando eles chegaram, achamos que eram pessoas boas, nos olhavam nos olhos, conversavam calmamente, nos ajudavam nas tarefas diárias e nas dificuldades. Mas isso tinha um preço, um preço que tínhamos ouvido falar em outras tribos: nossas almas. Eu conhecia a conseqüência desse comércio, muitas famílias e tribos desapareceram em meio a essa loucura causada pelo deus vapapu dos brancos. Eu vi como jovens e crianças ficaram possessas, vestiram as roupas dos brancos, aprenderam a língua deles, caçoavam dos pais e mais velhos, quebraram as casas de Tutu e queimaram as camas de Tata. Muitas tribos e famílias foram abandonadas e negadas, pais adoeceram amargurados e velhos foram exilados por causa de sua resistência contra o deus vapapu dos brancos.
-Quando e como os conflitos começaram?
-O Diabo Branco não age de um jeito apenas. Ele espalha seu veneno em outras tribos, por outros missionários, os grupos formados acabam entrando em competição para ver quem agrada mais ou conhece melhor o deus vapapu dos brancos. Os missionários estimulam seus grupos, incentivam a discórdia pois a confusão aumenta o medo e a incerteza, aumentando o número de pessoas desprotegidas contra o veneno dele! Vêm desses missionários as palavras confusas e ambíguas do Diabo Branco, bem como o incentivo para reavivar antigas diferenças entre as tribos, seja por terras, seja por gado. O deus vapapu dos brancos somente aparece e cresce onde existe medo, discórdia e ignorância! Quando nada mais resta, os brancos podem sossegadamente apossar de nossas terras e colocar suas casas fedidas, cheias de fogo e fumaça, aonde nossa gente vai em busca de sustento e acabam sumindo.
-O sr afirma que Cristo veio para ajudar aos brancos para colonizar e exterminar nossa gente?
-Ah, minha menina! Você esteve na faculdade e esqueceu do que aprendeu com os anciãos de sua tribo? Tutu fez os homens nascerem, mas alguns foram embora e Tata sentiu que seus filhos voltariam modificados pela distância e pelo esquecimento. Eles voltariam dominados por algum vapapu que existe unicamente para sugar e esvair toda a vida nesta terra dos ilisi.
-Não, vovô, não esqueci. Apenas queria confirmar que o Cristo trazido pelos brancos é o tão temido deus vampiro que existe unicamente para devorar toda a vida. Eu sei perfeitamente o que Tata nos deixou de herança para combater e matar de vez esse deus vampiro. Eu vou até as cavernas de Ngame e pegarei as palavras de Nana!
-Boa sorte, minha neta. Você deve ir sabendo que o vapapu estará vigiando todos os seus passos, pronto para te atacar. Eu espero sinceramente que não tenha esquecido do que os anciãos te ensinaram. Vá, vença e leve as palavras de Nana para seus amigos. Não volte para cá.
Lugalu sai decidida e prevenida, mas com uma dor no coração, ele lhe secretava que esta era a última vez em que veria seus preciosos amigos, os ilisis. Eu continuo o próximo trecho a partir daqui. Boa noite!

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