3 de mai de 2009

Anjos e a bruxa

Apesar de sua anatomia ser evolutivamente superior, Veniel sentia o calor de Maceió, suas asas estavam encharcadas com seu suor. A pobre vestimenta colorida agora mais parecia um pano de chão encardido. Ela sentia a cobiça e a luxuria que os homens sentiam por ela, depois que os olhos humanos se acostumaram a presenças mais etéreas, seu serviço ficou mais difícil e delicado. Como mulher, ela podia simplesmente ignorar, porem os sentimentos humanos eram pesados e afiados, era sufocante e a machucava demais. Isto a colocava mais decidida para acabar com as pretensões humanas, criaturas tão imaturas e inconseqüentes jamais poderiam tomar o lugar dos deuses, como o projeto inicial indicava.
Suas mãos tremiam em pensar no ato que fez ao deixar humanos empunhar as armas dos deuses e treiná-los. Com a pouca ciência e tecnologia que possuíam, os humanos conseguiram cometer violências contra sua gente e seu meio ambiente, o que seria dos deuses e do mundo espiritual se os humanos realmente ascendessem entre os planos de existência?
Isso dava a ela uma força, uma coragem necessária para encarar Samael que certamente estaria guardando Rosângela de quaisquer atentados do Comando Tribulação, ou do Exercito do Cordeiro, ou da Alkaeda. Entrar no apartamento onde Rosangela morava foi relativamente fácil, mas o ambiente era confortável, lembrando-a de seus momentos de infância. Toda aquela harmonia, sinergia, cores, perfumes, era difícil não se sentir acolhida e abrir a guarda. Mais irresistível era o cheiro que vinha da cozinha, onde Veniel encontrou Rosangela preparando algo.
-Você chegou! Que bom! Sente-se, que o almoço está quase pronto.
-Onde está Samael?
-Foi dar uma volta. Eu o convenci a conversar comigo. Eu sei muito bem o que você está sentindo.
-Humana tola! Acha mesmo que seus brinquedos podem me ferir?
-Claro que não! Eu quero falar com você de mulher para mulher. Eu sei como é ter que crescer em uma sociedade patriarcal e falocrata.
-Doida! Eu pertenço ao mundo espiritual onde não há distinção sexual!
-Isso é o que você vive tentando se convencer. Você tem que sufocar sua sensibilidade, feminilidade e sensualidade. Acha que não terá respeito dos seus ou espaço para crescer como entidade.
-Realmente! Muito me espanta como seu grupo ainda consegue resistir tendo uma louca como orientadora espiritual! O que sabe do mundo espiritual? Não há um ser humano sequer conspurcando o solo sagrado!
-Mmmm, sei. Eu consigo sentir sua excitação e tesão por Samael. Eu posso até sentir suas partes intimas ficarem umedecidas somente em lembrar da voz dele. Você não acredita realmente que o mundo espiritual se encontra fechado, além e a parte do mundo físico.
-Argh! Vocês humanos tem uma fixação nojenta nos prazeres da carne!
-Deixe de ser falsa. Nós duas sabemos que o prazer não é uma característica exclusiva da carne ou da existência material. Sem desejo ou prazer existência alguma faz sentido. Eis o porque eu e muitos escolhemos reviver as antigas tradições, para expulsar este deus ridículo, pequeno, raquítico e complexado.
-Chega! Eu não vou mais permitir tais insolências, blasfêmias ou heresias! Com ou sem Samael, eu irei acabar com sua existência!
-Faça o que quiser, mas primeiro coma o almoço que preparei.
-Hahahaha! Que estranha inversão! A condenada concede à sua executora uma ultima refeição.
Rosangela sorri levemente enquanto serve o prato para Veniel que, faminta pela viagem, devora tudo, lambendo os beiços. A jarra de suco de cajá acaba em minutos. A compota de abóbora fica vazia em tempo igual. Para arrematar, uma legitima caninha com água de rosas. Apesar de sua condição espiritual, Veniel não consegue se agüentar, se farta e o sono da satisfação segue.
-Bom, eu estou pronta.
-Depois, depois. Para que a pressa? Com essa brisa refrescando o calor que passei mais essa refeição me deixou piedosa. Essas almofadas são cheirosas e macias. Do que são feitas?
-Artesanato local, ervas, nada demais. Samael adora dormir em cima delas.
-Mmmm. Eu reconheci o cheiro. Será que ele demora?
-Quer que eu o chame?
-Faria isso?
-Claro. Amiga! Eu sou do amor. Adoro atiçar brasa adormecida.
-Ai meu Deus! O que será de mim quando souberem?
-De quem? Eu não vou contar, você vai?
-Ai! Eles vão notar! Eles sempre notam!
-Agora não da para voltar atrás. Ele está chegando. Qualquer coisa eu te garanto!
-Sa-sa-sa-Samael? Eu-eu-eu-eu-ai meu Deus!
-Bom proveito, amiga!

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