3 de mai de 2009

Bingos e templos

Eu percebo que negligenciei a Sandra nos últimos capítulos, portanto acompanhemos os registros da biocam que a segue. Ela não está muito contente, eis que chega sem aviso a tia Dreidel, parente de seu avô e ela terá de acompanhá-la em sua visita pelo Rio. Como toda aposentada brasileira, sua diversão e distração se resumem em freqüentar bingos. Um programa de índio para nossa bela cientista, mas insuportável é ouvir as teorias e opiniões dessa senhora que sabe e conhece tudo.
-Eu adoro bingo. O rabino me censura, mas eu não ligo. Sabe qual é o maior concorrente dos templos? O bingo. Sabe, filhinha? O bingo é como uma religião. O que as pessoas procuram num templo? Um serviço. Qual o serviço de um templo? Fornecer às pessoas uma promessa, um futuro certo diante das incertezas e imprevistos da vida. Para isso, são necessários um local adequado e pessoas treinadas. Os visitantes precisam conhecer as regras da casa e da execução do serviço, do contrário o que se tem é bagunça. Ora, é preciso ter certos hábitos, costumes e roupas adequadas. As pessoas entram, são recebidas pelos coordenadores e são conduzidas por um mestre de cerimônias, para o bom sucesso do serviço. Ali, todos têm as mesmas chances e sonham com o mesmo futuro dourado. As palavras e anúncios do mestre de cerimônias são ouvidos com profunda atenção e respeitos. Quem está dentro do esquema tem pena de quem está fora, mas reluta em dividir os espólios de seus ganhos. Quem está fora não suporta quem está dentro pela petulância e altivez destes. Os governantes não sabem como lidar com isso, eles sonham em ter a mesma relevância social que o mestre de cerimônias, mas condenam os métodos utilizados. Por diversos motivos e situações, imitam e utilizam os mesmos esquemas. Agora me diga se não são iguais, um bingo e um templo religioso!
-Interessante, tia Dreidel. Esta máquina está boa? Fique em seu jogo enquanto vou ficar na recepção, na área do café, comer um lanche e ver notícias enquanto a senhora joga.
-Ah, menina! Igualzinho ao Chebim! Vá, deixe esta velha sozinha, vá!
Sandra nunca caiu nestas pequenas armadilhas sentimentais que pessoas carentes lançam, feito dardos, nas emoções alheias. Nem cedeu à tentação de falar sobre as antigas tradições e sua formação como aprendiz de bruxa, pois sabia que daria querosene ao fogo. O melhor a fazer, quando surge uma discussão ou crítica religiosa, é ignorar os interlocutores, pois o que estes procuram não é o diálogo, mas a provocação, por simples despeito. Ela pede uma dose de vodka, tentando apreciar em algum canto, em qualquer banco que pudesse ficar sossegada, sem o assédio dos garanhões locais. Uma boa vantagem em ser bruxa é que se consegue dispensar os mais oferecidos com um simples olhar. Ela pensou em chamar Emanoel, para livrá-la dessa maresia, mas antes de pensar em pedir para o barman um telefone, uma notícia extraordinária espocou com um título em cores vibrantes: explosão misteriosa no Ártico e no Antártico!
O copo caiu de suas mãos, os atendentes e clientes próximos do único monitor ligado nos canais televisivos compartilharam os mesmos espanto e surpresa que a assaltaram. O que Sandra não daria para estar com seu radiocom agora! Ela precisava falar com Emanoel, com seu avô, com Silveira, alguém, qualquer um! As imagens eram terríveis e pavorosas, uma coluna imensa de fogo subia do solo à ionosfera, gelo derretendo, milhares de criaturas marinhas e fauna local dizimadas! Quantas pessoas, quantos navios estariam no local na hora? Qual seria a conseqüência de tal tragédia? As mesmas perguntas dos repórteres internacionais surgiram imediatamente no pensamento de Sandra: quem, por que, como?
A pista apareceu, mostrando a mão de quem estava ensangüentada: Empresas do Grupo Default. Para Sandra era bem mais que evidente o porquê do ponto zero da explosão ter sido exatamente nos locais onde as empresas de Derrer estavam.
Os atendentes e clientes do bingo ficaram chocados com a notícia, todos começaram a sair, incluindo sua tia Dreidel. Do lado de fora, um grupo evangélico imprecava contra o bingo e as pessoas que estavam dentro, dando um destaque mais ofensivo aos funcionários do mesmo. Sandra percebeu que não eram apenas os mesmos idiotas fanatizados por um pastor habilidoso nos sermões, mas integrantes do Exército do Cordeiro estavam em meio ao grupo, usando-o como fachada, escudo, espada e justificativa para a ação de destruir o local. Sandra encarou o pastor que encabeçava a multidão ensandecida e riu do comandante do Exército do Cordeiro, eram os mesmos que tentaram acabar com o Teatro do Largo da Carioca, com a peça do Wanderley e com tantos artistas quantos conseguissem pegar. Eles também a reconheceram, sabiam que era imprescindível calar nossa guerreira, do contrário perderiam o comando e o reconhecimento do grupo que lideravam. Quando o pau começou a comer é que começou a ficar engraçado.
Muitos dos presentes eram de todos os lugares e credos, mas para livrar o couro, todos se diziam católicos, evangélicos, crentes do Senhor Jesus, choravam e clamavam pelo auxílio de seus santos da guarda, anjos ou por Deus diretamente. Aparentemente, Jesus age igualmente como o Pai dEle, Deus: massacrou a todos, culpados ou inocentes. Apenas Sandra e algumas pessoas que não negaram seus deuses permaneciam incompreensivelmente intocadas. A pobre tia Dreidel, em todo seu saber só pode agonizar antes de encarar a triste verdade de que nunca soube coisa alguma e estava despreparada para o único fato certo nesta vida: a morte.
Como era de se esperar, a polícia apareceu tarde demais, quando o grupo fanático cansado fugiu para seu antro, ao perceber que algum poder protegia Sandra e outros. Em outra ocasião ela retribuiria a gentileza e visitaria o grupo em seu covil, para mostrar a todos os integrantes quem tem o poder. Neste instante, ela somente boceja e espreguiça, sente que em minutos Silveira e Emanoel apareceriam para salvá-la. Jamais ninguém precisou ser salvo, do que quer que seja, por quem quer que se ofereça. Um ídolo de um homem moribundo, agonizante e sangrando na cruz para muitos é o símbolo do amor de Deus para a humanidade. Então, uma mulher, que menstrua uma vez ao mês, durante três dias, pela vida toda, não deveria ser mais reverenciada? Cristo só tornou-se divino porque não usou absorvente. Ai! Hoje eu estou bem satânico! Fim, chega e paz!

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