3 de mai de 2009

Cresce a resistência

Que tal falarmos hoje desta incrível síndrome que ataca os grupos evangélicos, quando o assunto envolve sexo? Um fantasma de meu passado ideológico romântico marxista tenta me assustar, lembrando que as antigas tradições estão voltando ao cenário exatamente para salvaguardar os senhores da sociedade, enquanto o populacho escoa pelo ralo. Considerando que os poucos bastiões do comunismo não dão qualquer demonstração da tão esperada justiça social, eu forço a vista desta sombra para o fato de que a China tem certas reivindicações quanto ao possível espetáculo de Britney Spears em seu território. Não é privilegio dos grupos religiosos tal neura, quando essa matéria deliciosamente carnal esta em discussão. Tudo que envolve prazer e liberdade são ameaças a qualquer sistema totalitário. Agora fica mais fácil porque tem tanto homofóbico, tanta biba enrustida de coronel, perseguindo os transgêneros.
Por este e outros motivos, Wanderley não permanece mais que um dia, nas cidades onde consegue encontrar algum palco com um proprietário louco o suficiente para dar mais valor aos artistas do que para bilheteria. Em seu espetáculo itinerante, Wanderley chega próxima da fronteira entre Bolívia e Acre, em uma aldeia de brasileiros nativos. Um pequeno parêntese: nós que nos consideramos tão culturalmente superiores temos uma mania danada de idealizar o índio como uma criatura inocente e ingênua, no entanto Wanderley e seu espetáculo tiveram um acolhimento melhor entre estes, simplesmente por estarem livres desse entulho neuro-psicótico que a tradição judaico-cristã nos aflige.
Bom, Wanderley fez seu espetáculo, com todas aquelas palavras de duplo sentido que escarnece nossa mente puritana. A platéia ria, como nunca Wanderley ouvira antes e fazia coro com as piadas e gracejos que a peça tinha contra Cristo. Mesmo os trejeitos afeminados ou palavras vulgares não pareciam ter o mesmo efeito nestes índios, todos participavam da brincadeira com naturalidade. No fim, Wanderley estava exausto, mas completamente satisfeito e realizado como ator e autor. Ao entrar em seu camarim, percebeu que o pajé local o esperava.
-Você é xaman, não?
-Que? Como? Ah, não, eu apenas interpreto.
-Bobagem. Eu vi atores interpretando. Eles tentam incorporar, você entra no espírito. Eu posso ver seu espírito guia e a alteração da sua aura.
-Mesmo? Eu nunca percebi isso. Eu devo ter recebido algum estimulo de uma bruxa que conheci.
-Mas esse é o principal do xaman, ele consegue naturalmente sua conexão com os espíritos. Essa bruxa com certeza te explicou que isso não pode ser ensinado ou dado.
-Puxa! Eu não tinha pensado nisso. Ela me disse algumas coisas, mas eu não levava a serio.
-Que pena! Com o potencial que tem, desperdiça por causa de magoas mal resolvidas. Você precisa se livrar dessas memórias falsas. Capacidade de se curar você possui, mas eu posso ajudá-lo a apressar o processo.
-Oh, bem, porque não? Eu ainda não dei uma chance para as antigas tradições. O que devo fazer?
-Nada de especial, relaxe e entre no espírito, como você faz antes de seu espetáculo.
Esta parte vai parecer uma copia mal disfarçada de um episodio do desenho Shaman King. Wanderley relaxa. Seu corpo entra em estado de vigília, mas sua mente entra em modulo de atividade, mas com ondas cerebrais em outra freqüência. O calor e umidade do ambiente não mais o incomodam, os sons dos bichos parecem com sussurros de antepassados chamando por ele. Na sua pele, uma leve eletricidade estática e formigamento. Pela fresta do olho, ele percebe que começa a emitir sua aura para além de seu psicocampo. Em instantes, tempo, espaço, ontem e hoje são uma só realidade e Wanderley consegue se ver como o único responsável pela dor e magoa que carregou até agora.
Do lado de fora, um tumulto. A tribo se encontra ameaçada por madeireiros e garimpeiros que resolveram tomar o território dos índios à força. O pajé sabe o que está acontecendo, sai para enfrentar os invasores juntamente com Wanderley. Por estar no mesmo estado que o pajé, Wanderley consegue perceber facilmente que os invasores estão sendo apoiados por outros grupos, um grupo humano e um grupo espiritual. Apesar de tantos maquinários, armas e pessoas, Wanderley consegue ver, face a face, os soldados do Exercito do Cordeiro e, por detrás destes, a legião de anjos. Num piscar de olhos, a tribo e a selva em redor se transformaram em descampado com o brilho provocado pelas novas armas, com o enfrentamento entre o pajé, Wanderley e espíritos da selva contra os invasores, soldados e anjos. Como não sou comentarista esportivo, não vou detalhar o decorrer da partida nem o resultado final. Não existem vencedores em uma guerra. No dia seguinte, Wanderley segue sua viagem, abraça o pajé que o presenteia com um de seus pingentes. Ao fim da tarde, Wanderley estaria em algum lugar da Bolívia, apresentando seu espetáculo. Ele estaria fora das mãos famintas de Miranda e ficou feliz por saber que as tentativas de invasões contra a tribo cessariam. De seu novo amigo, Wanderley recebe uma promessa: de que sua força e história seriam contadas a outras tribos, que querem resistir ou se libertarem da ação dos missionários de Cristo. A semente começa a brotar.

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