2 de mai de 2009

Em São Paulo

Kelvin passeia pelas ruas de São Paulo, depois de uma rápida passada no Rio, junto com Platus, o driir que é seu espírito guia. Numa cidade cuja imensidão e produtividade só rivalizam com sua insensibilidade e individualismo, duas crianças passeando solitárias na rua não chama a atenção nem causa estranhamento. Eles sabem que não poderão contar com a ajuda dos adultos, mas eles conseguem facilmente abrigo e apoio das muitas crianças de rua, fruto da omissão dos governantes e dos progenitores. Habilmente escolhem o acampamento improvisado construído ao lado da sede da Comunidade Luz de Jesus que, como tantas organizações evangélicas, não parecem ficar incomodadas ou chocadas com tanto indigente acampado em viadutos próximos de suas sedes. Na verdade, tal fato apenas contribui em suas políticas paliativas, que rendem uma boa impressão diante da sociedade constituída.
-Então, este é o coração do monstro, da verdadeira Besta que prepara o retorno do Usurpador para este mundo.
-O coração, nós teremos uma frente operante nos EUA para atacar o cérebro, o Comando Tribulação.
-Parece estar bem vigiado e guardado. Como iremos entrar, vasculhar e encontrar mais um fragmento da memória dos deuses?
-Eles são adultos, tem pensamento muito óbvio e previsível. Se você estivesse com um documento que poderia arruinar seus planos, o que faria?
-Eu o destruiria imediatamente.
-Pois este homem não somente guardou este documento como pretende usá-lo para tentar controlar ou extorquir o Cordeiro.
-O que contém este pergaminho? Onde ele o guarda?
-Nele encontram-se as palavras que irão despertar as memórias dos deuses e dos homens, revelando a verdadeira face do Cordeiro. Este imbecil guarda dentro do cofre particular em seu escritório, algo que os anjos colaboradores do Usurpador estão cientes. Nós deveremos pegá-lo enquanto tal peão neste xadrez cósmico é útil ao Carrasco.
-Qual o plano para surrupiar este pergaminho de dentro deste cofre, como iremos retirá-lo de dentro do forte e como conseguiremos fugir desta masmorra?
-Nós somos crianças, os adultos possuem uma visão idílica de nossa idade. Nós iremos aproveitar desta imagem de pureza e inocência que nos atribui para conduzi-los a nos ajudar em nossa missão.
-Isso vai ser fácil e divertido!
Kelvin e Platus percorrem livremente, sem incômodo ou impedimento, as inúmeras passagens e extensos corredores da sede da Comunidade, salvo aquelas palavras de adulação e carinhos infantis que crianças detestam receber dos adultos. Nem mesmo os imensos seguranças particulares de Miranda os interpelam, os dois conseguem entrar no vestíbulo que antecede a entrada do gabinete pessoal de Miranda, parando na porta de entrada para dar uma espiadela. Miranda está concentrado em mais uma reunião com pessoas que Kelvin não conhece, mas percebe pelo rosto delas que não são pessoas de boa índole. Platus sussurra algo como uma revelação para Kelvin:
-Eles são bandidos locais, assaltantes, seqüestradores, traficantes. Miranda pretende dar um golpe de morte no CR.
-Quem é CR?
-O Círculo Racional. Um grupo de adultos que conhecem a verdade e ajudarão a derrotar o Cordeiro. Nós temos que pegar este pergaminho e entregar a eles, para o sucesso da resistência!
-Não seria melhor avisá-los do perigo?
-Não será necessário. Eles possuem seus guardiões e informantes no meio do mundo espiritual.
-Vamos em frente, então.
Os meninos aproveitam sua baixa estatura para, disfarçadamente, esgueirarem-se através dos móveis, cortinas e cantos do gabinete, conseguindo posicionarem-se atrás de Miranda. Kelvin tenta, desesperadamente, concentrar-se em sua missão, ignorando a conversa que estes adultos estão tendo, por mais horrível e sinistra que esta possa parecer. Espera pacientemente junto com Platus, até que Miranda encerre sua conversa com estes sócios e abandone seu gabinete para tratar de suas outras atividades. Enquanto Kelvin vigia a porta, Platus demonstra suas habilidades abrindo rápida e facilmente o cofre pessoal de Miranda, sem acionar alarme algum. No exato instante em que Platus passa o pergaminho para Kelvin, para que pudesse fechar dentro do cofre uma cópia fajuta do pergaminho, um anjo surge na sala.
-Onde os meninos pensam que vão com o santo manuscrito?
-Uriel! Kelvin, fuja! Eu seguro o anjo!
-Acha mesmo que pode me deter? Quem irá proteger o humano? Você sabe muito bem que não podemos falhar.
Enquanto Platus deixa Uriel ocupado com suas macaquices e golpes, Kelvin mal consegue dar 3 passos para além do cofre, diante dele aparece uma menina com uma composição semelhante a Platus e o impede de continuar a fugir.
-Kirna! Você também vendeu sua liberdade ao Usurpador!
-Platus, meu Platus! Você não o viu de perto, não sentiu o imenso poder que emana dele! Você não ouviu as palavras dele! Ele é o Senhor!
-Quem é ela, Platus? O que faço agora?
-Ela é minha companheira! Nós não temos escolha, lute com ela, vença-a e fuja!
-E' inútil, pequeno driir! Nós estamos bem posicionados, vocês estão cercados!
-Kirna! Você deve acordar! Nunca devemos esquecer! Em memória do Inominável!
Uriel não espera pela definição de Kirna ou a luta entre ela e Kelvin, implacavelmente agarra e golpeia com suas enormes mãos o pequeno driir. Quem teve a desagradável experiência de encontrar um pitboy, não imagina a sorte que teve diante da experiência de um driir receber um impacto de um anjo. O plasma que recheia o driir espalha-se como gelatina de anis pelo chão do gabinete diante dos olhares pasmos de Kirna e Kelvin. Tal como um ator coadjuvante que espera por sua deixa, Miranda surge pelo vão da porta.
-Então? Acabou?
-Fique vendo enquanto liquido com o moleque.
Kirna, num átimo de dor diante do assassinato frio de seu esposo, toma Kelvin em suas mãos e o atira para fora do gabinete, juntamente com o pergaminho. Uriel e Miranda quase explodiram de rir do último esforço da driir, mas Kelvin desaparece dentro de um vórtice evocado por alguma outra entidade fora de cena.
-Nããão! Sua renegada! Sabe o que acaba de fazer?
-Sim, eu sei. Justiça! Nunca devemos esquecer! Em memória do Inominável!
Uriel, mesmo sabendo que havia sido derrotado e seu tempo estava contado, esparramou o plasma de Kirna pelo gabinete de Miranda.
-Ótimo! Perfeito! Agora nem nós tomaremos o poder do Cordeiro como acabamos de fornecer a nossos piores inimigos munição para acabar com nosso golpe!
-Cale-se, humano! Sua capacidade mental não conseguiria perceber as estratégias da batalha! Eu, ou melhor, nós ainda estamos com tudo sob controle!

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