2 de mai de 2009

Encontrando Nana

Deserto de Udulu, local onde as cavernas de Ngame abrem suas bocarras escuras para uma paisagem tórrida. Em frente, algumas gramíneas sobrevivem graças aos ventos úmidos que sopram de dentro do ventre da terra, sem que houvesse um explorador ou cientista que se aventurasse dentro destas gargantas profundas para tentar descobrir os mistérios de suas formações. Lugalu chora, pois percebe que o santuário de Nana que existia, incrustado nos vales entre as cavernas, foi saqueado e destruído provavelmente por algum missionário ou recém convertido menos esclarecido sobre o valor dele. Realmente, o cristianismo consegue estimular o que há de pior entre os humanos.
Ela sente raiva e pena dos cristãos por causa de tamanha ignorância e fanatismo, enquanto sente a urgente necessidade de tomar alguma providência para acabar com isso. Um chamado a atrai para dentro de uma das cavernas e ela segue sem medo, pois em sua infância brincara muito dentro destas cavernas. Entretanto, desta vez encontra ninguém mais senão Nana, o espírito humano mais antigo existente.
-Como vai, minha filha? Eu também sinto a mesma raiva e pena. Mas será que temos a autoridade e a competência para agirmos?
-Nana! Eu vim exatamente para buscar suas palavras e combater este terrível mal!
-Minhas palavras não são mais importantes. Os humanos estão recordando os deuses antigos e com isso despertando os mesmos de sua catatonia. O principal disto tudo é exatamente nos fazer definir afinal o que é bom ou ruim, não o que é o mal ou o bem. Eu ainda não estou certa de que tenhamos alcançado a maturidade necessária para julgarmos tais conceitos.
-Mas como? Cristo é o Usurpador! Os humanos precisam reaprender as antigas tradições, esta é a única forma de haver algum futuro para a raça humana! Eu tenho visto tantas provas escandalosas, o que os deuses antigos esperam para interferir?
-Foi por isto que te chamei. Para que possa prosseguir, você precisa aprender a ter alguma forma de crítica para analisar suas convicções, antes de pretender decidir e punir outra convicção. Eu vim e vivi tantas vezes, posso contar muitas gerações em que as antigas tradições e os deuses deste mundo dominaram. Mas o que de produtivo trouxeram para a humanidade? Eu assisto envergonhada a pessoas tentando reproduzir os ritos antigos, tratando a Deusa como crianças que ainda não desmamaram. Basta ver em grupos sociais ainda primitivos, por que não aparece o desenvolvimento da compreensão da natureza, como ocorreu entre os semitas e outros povos? Como podemos acusar a Cristo por seus crimes quando em nossas mãos correu muito sangue inocente? O que fez os antigos deuses ficarem tão ausentes, por que deixaram que Cristo dominasse? Por muito tempo eu considerei que isto fosse uma espécie de efeito provocado por alguma regra ou aposta entre os deuses, mas diante do jogo sujo de Cristo por que eles ainda continuam jogando limpo?
-Nana, você que foi chamada indevidamente de Eva, aquela que iniciou a raça humana como é compreendida, aquela que desenvolveu a alma a partir da carne e da natureza humana, não foi de você que a humanidade começou a desenvolver sua intuição espiritual? O que sei vem da arrogância exibicionista dos cientistas da atualidade, que não enxergam que a tão superestimada experiência científica não é mais que mera prestidigitação e a tão sagrada evidência não passa de espelho de circo. Eu preciso saber como tudo começou e por que chegamos a este ponto!
-Isto também é algo a ser considerado. Muitos de meus filhos esqueceram que a atual ciência deve muito a antigos alquimistas, druidas, bruxos e xamãns por terem continuado a dissecar os mistérios da natureza. Eu irei contar a minha memória, que em breve será recuperada por toda a humanidade.
Eu sou Nana, nasci em uma época que atualmente é chamada de Paleolítico. Eu tinha algo que foi desenvolvido, parcialmente pela evolução da raça antropóide e parcialmente foi provocado pela mistura da raça de alguns símios com a dos deuses. Antes deste contato, alguns tipos de antropóides tinham previamente uma forma elaborada de instinto espiritual, desenvolvido a partir do instinto de sobrevivência e crendices primitivas. Agora eu lembro, como era engraçado ver como os velhos viam aos animais e fenômenos naturais como formas de consciência coletiva de um espírito. Mesmo naqueles tempos rudes, havia entre nós esta impressão vinda da natureza que tudo continua, em diversas formas. Não demorou em que, primariamente, começassem a inumar os mortos e a cuidar dos mais fracos e debilitados, tudo para evitar que estes voltassem zangados, através de outras formas. Eu não a enganarei, a tão estimulada caridade veio mais por estratégia de sobrevivência em época tão dura para a existência humana do que por piedade, misericórdia ou outra baboseira espírita. Os cuidados dispensados aos mortos não deixavam de ser diferentes, é mais vantajoso subornar os que passaram desta vida para o além, através de ritos propiciatórios e mandingas apaziguadoras. O contato com os deuses deu para mim e meus conterrâneos uma forma mais ordenada sobre o mundo espiritual, começamos a conhecer isto que se chama de magia, que posteriormente assumiu uma forma mais evoluída e se consagrou nas inúmeras religiões atualmente conhecidas. Muito bem, a tribo cresceu, ampliou e diversificou, conforme a distância e o meio em que se colonizou, com uma evidente ajuda dos deuses, em troca da mesma atenção e ritos que previamente se dispensava aos mortos. Alguns grupos alcançaram os níveis de conhecimentos necessários para o aparecimento de cidades e da cultura, enquanto outros permaneceram primitivos. A história demonstra que os grupos que alcançaram a qualidade de civilização foram os que desenvolveram, não somente formas mais complexas de produção, mas também expandiram seus conhecimentos. Grupos mais complexos tendem a aumentar as necessidades, objetivos e extensão de seus territórios, levando aos inevitáveis choques e guerras. Muitos impérios surgiram e desapareceram, muitas tribos foram escravizadas, aniquiladas ou assimiladas, mas o gênero humano continuou e alcançou novos níveis de desenvolvimento e conhecimento, graças a esta mistura de convicções e perspectivas desenvolvidas por cada grupo em seu meio, de acordo com a interação entre estes fatores. Até então, mesmo em civilizações mais complexas, esse sentimento religioso era característica de cada unidade familiar, não havia uma forma oficial ou estatizada de religião, estamos na época do domínio das antigas tradições, unificadas num nome pejorativo: paganismo. Hoje em dia é impossível pensar no sucesso do monoteísmo sem a ajuda dos impérios pagãos, que por problemas advindos da própria estrutura social acabaram adotando o cristianismo para preservarem os privilégios conquistados. Sem isso, o judaísmo hoje seria uma mera curiosidade, possivelmente estaria extinto e o islamismo sequer existiria. Como pode ver, minha cara criança, a coisa não é tão simples, tão fácil assim. Não podemos e não devemos agir com o mesmo maniqueísmo com que nos perseguem. O mais prudente é esclarecer a todos da verdadeira face de Cristo, que infelizmente é sustentada pelas leis das antigas tradições e se tornou uma pálida máscara disforme de nossos próprios conceitos místicos sobre o mundo espiritual. Parta agora e espalhe aos seus amigos que a chave está em despertar em todos esse sentimento: o caminho espiritual está onde sempre esteve: na consciência da humanidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário