3 de mai de 2009

Exercício de descondicionamento

Opa! Quase me esqueci da dica principal, no capitulo anterior. Não há nada que contribua mais para a existência dos grupos evangélicos que este sistema perverso em que nos encontramos. Na verdade, tudo o que tais grupos mais queriam é que realmente fosse verdade que o Estado vigente tivesse um acordo escuso com o Tinhoso. Como eu disse, é lógico, apesar de doentio. Concentrando as mazelas criadas por nossa elite dominante na figura do Canhoto, acaba por alienar e desviar as massas ignaras desta ação consciente como cidadãos ativos, evitando que nós, povo brasileiro, tomemos os rumos de nossos destinos de forma consciente e coletiva. Simplesmente porque, se isto ocorresse, estes grupos perderiam seu ganha-pão! Por isso que eu digo que, se existe algum acordo escuso entre as figuras do Estado vigente e uma entidade espiritual, sem dúvida deve ser este capitalismo selvagem com o Cristo. Por isso, não se enganem, nenhum grupo evangélico está interessado na revolução ou na justiça social, eles querem é dividir com os verdadeiros responsáveis por esta cruel sociedade, os lucros e a dominação sobre sua vida.
Existem outras formas de desviar a atenção da opinião pública do fato que verdadeiramente importa para nosso futuro: a criminalidade, fruto dessa sociedade estúpida, forneceu não somente este debate espúrio sobre a idade penal, como também sobre maior rigor na lei, trabalho forcado, prisão perpetua e até, pasmem, pena de morte. Outro produto maquiado é os espetáculos esportivos, o futebol por exemplo, tem demonstrado a conseqüência desse estimulo as paixões mais rasteiras do humano, com essas guerras entre torcidas. Com o advento das olimpíadas, tem esse totem surrado do patriotismo, que simplesmente não funciona ou não existe, tantas são as máfias formadas por brasileiros prejudicando seus próprios compatriotas. Alguém lembra de que eu disse: o problema do brasileiro é seu amor à Pátria, mas não aos brasileiros? Eu vou poupa-los de lembrar minha igual indignação quando surgiu a neurose da moda: pedofilia. Eu enchi lingüiça demais, voltemos aos nossos heróis.
Com muito custo, Milton consegue levar seu pai, Ezequiel, para um passeio. Considerando que moram no Rio e ultimamente são visados por pertencerem ao CR, é um risco e tanto. Para curtir o passeio de família, Milton, o dr Batista, deixou seu imediato de confiança, Silveira, como substituto no cargo de delegado. Os Batistas foram ao shopping da Barra.
-Pai, relaxa! Eu te disse! Confie em mim e em nossos protetores!
-Eu sei, mas não consigo. Você esquece que Pedro Calabar morreu em meus braços? E eu nem tinha idéia do que dizer! Logo eu! Simplesmente deu branco! Todas aquelas palavras que decorei anos a fio, não faziam mais sentido!
-Mais um motivo para relaxar. Dessa forma, fica mais fácil aprender, com fontes mais confiáveis e convincentes que livros escritos por sacerdotes humanos.
-Eu não consigo! Eu era como muitos destes fanáticos que fazem rodas em praças publicas, toda a verdade estava na bíblia! Qualquer coisa fora ou diferente era vista como produto do Diabo para arrastar almas ao Inferno. Agora, eu nem sei quem sou!
-Relaaaxa! Eu não fui muito diferente, era ateu compulsivo, não deixa de ser um capuz. Você falou com Zeheler, ele não falou dos dias em que ele era um típico Dexter? Mas nós dois conseguimos assimilar os fatos que agora são bem claros.
-Eu pensei que sabia tudo sobre a Eternidade, a salvação e o perigo do pecado. Eu realmente acreditei nas palavras deixadas por Cristo. Acabou formando uma espécie de crosta que evita que eu esqueça todo esse engodo, o que aumenta minha vergonha!
-Eu entendi. Você possuía uma idéia pré-concebida do mundo espiritual e agora que pode ver tão claramente como nós, tal como ele é, sente um desconforto, um estranhamento, uma rejeição. Quer praticar junto comigo as etapas de descondicionamento? Ainda tem o folheto da AMSG?
-Sim, mas será que podemos fazer os exercícios aqui? Vai chamar atenção, algum cristão vai reparar e nos denunciar!
-(ignorando as palavras de seu pai) Primeiro passo: ficar em local confortável, com alguma pessoa de confiança, amigo ou familiar. Bom, estamos sentados e consumimos o lanche, nossos corpos estão satisfeitos, confortáveis e relaxados. Eu estou com o sr e o sr esta comigo.
-Olha a entonação. Eu usei tantas vezes este bordão!
-(pigarreando) Segundo passo: reavaliar os preceitos, prejuízos e preconceitos que te incomodam. Bom, eu tento conviver com o fato de que não sou chefe coisa alguma do CR. Eu gostaria de entender e participar mais ativamente, sem saber como, quando e onde. Agora é o sr.
-De novo? Eu estou contrariado por não ter, num momento crucial como aquele em que estive no leito de morte de uma pessoa, um pensamento ou orientação a dar.
-Aceite então, que não depende da orientação ou sabedoria do sr, os caminhos ou os destinos que cada alma escolhe para si. Da mesma forma que todos, o sr também esta no meio da rota, da sua rota. Aceite a viagem, aceite que nunca houve quem pudesse mostrar os caminhos certos, aceite que todos os caminhos são validos.
-Isso pode me ajudar a engolir minha culpa e falha. Mas não esta escrito que não há culpa se não aceitarmos o conceito do pecado?
-O que está escrito, o que esta escrito...vai voltar a ser o pastor programado que irá espalhar um condicionamento imposto? Apenas escute seu coração! Aceite aquilo que achar convincente, aplique o conhecimento em seu beneficio!
-(bufa e passa a mão no cabelo) Isto parece complicado. Tem mais etapas?
Enquanto pai e filho repassam o programa de descondicionamento, um pastor vai passando com sua comitiva por entre os usuários do shopping, naquele péssimo hábito de fazer proselitismo que tanto incomoda. As lojas tentam evitar o incomodo aos clientes enquanto outras têm que aturar o discurso cheio de fúria moralista do pastor e sua turba de marionetes. Em dado momento, este pastor reconhece Ezequiel, pois tinha o visto anteriormente em um simpósio evangélico. Ato contínuo, foi conversar com ele, sobre estes assuntos que evangélicos tanto gostam de conversar. A face do pastor passou, de eufórica para carrancuda, ao reparar nas mãos de Ezequiel o folheto com o símbolo da AMSG, um símbolo como outro qualquer, mas que provoca um reflexo condicionado nessa mente límbica. Eu gostaria de tentar reproduzir, mas eu não sei falar a língua dos répteis.
A corja que acompanhava o pastor logo se pôs em posição de ataque. Todo aquele papo de amor ao próximo e quetais simplesmente deixam de existir, quando é comodamente interessante aos mandantes destes grupos. Ezequiel assiste a tudo impávido, sem reação. Pânico no shopping, tiros. Fuga. Um corpo no chão. Ezequiel e seu filho estão intactos.
Um problema sério, quando se tem um grupo armado e irracional sob comando: corre-se o risco de ficar na alça de mira e ser varado pelo armamento de seus comandados. Pai e filho saem do shopping, sem percalços, sem perguntas, sem sequer serem interpelados pela segurança do shopping. Na rua, nenhuma viatura policial, as pessoas fazem o alvoroço esperado, mas não há um repórter para anunciar a notícia. Aos poucos, os transeuntes voltam aos seus afazeres. A morte de uma pessoa é algo banal e se tornou normal, uma coisa corriqueira, rotina. Eu vou parar agora, que eu estou me assustando. Fim.

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