2 de mai de 2009

Existência

O calor maternal e suave de Maceió desperta Kelvin de uma noite que foi aproveitada sem sono, sua barriga reclama por sustento e seu pensamento tenta compreender o que aconteceu durante a noite passada com Katerine. Ela, deitada languidamente ao lado de seu protegido, não parecia muito disposta a compartilhar do almoço ou oferecer alguma resposta ao menino. Um calafrio percorre sua espinha, com lembranças das lendas de seu povo quanto a esse tipo de contato com fadas. Olhando ao seu redor, Kelvin não nota qualquer diferença, exceto a satisfação, cansaço e prazer que surgem após a satisfação dos desejos carnais.
Tropegamente, Kelvin levanta da cama e se dirige para a mesa onde Rosângela espera pelos seus alunos, um curso para iniciantes nas antigas tradições, nos dois pontos que são distintos, porém ambivalentes. Rosângela nota certo embaraço e vergonha no menino, ele reluta em confessar algo que ela pressentira previamente no dia anterior. Sorrindo, ela quebra o silêncio com uma frase simples:
-Então? Foi bom?
-(engasgando) Eu-eu-eu-você sabia?
-Claro! Na verdade, com isso ambos pularam várias etapas de aprendizado.
-Mas-mas-mas-como? Ela sente? Tem desejo? Eu ainda não compreendo. Como as entidades espirituais possuem corpos? Por que sua aparência é igual a nossa? Do que são formados? Têm organismos, ossos, pele? Têm pensamentos, sonhos, medos? Ela me ama, como mulher ou como espírito?
-Quer saber a minha opinião? Essa resposta você deve procurar, eu só posso oferecer a minha perspectiva. Bom, vamos considerar o absurdo matemático, a estatística, que nada comprova. Considerando que a vida em nosso mundo surgiu após 6 bilhões de anos e que o Cosmo tem cerca de 1 milhão de vezes de anos a mais, quais são as chances de existirem formas de vida? Nós seríamos absurdamente incoerentes se aceitamos uma convenção sem aplicá-la plenamente. Pensemos igualmente nas probabilidades de que moléculas simples, inorgânicas, se combinassem até o momento de formar as moléculas orgânicas. Ou mesmo na teoria da evolução, que não explica como ou porquê a vida continua mesmo após uma extinção brutal. Uma simples palavra: existe uma lei anterior, que é a da existência, da vida. O que podemos definir como forma de vida? Mesmo a ciência reconheceu muito tardiamente que existiam bactérias e vírus. Então a questão é bem simples: apenas formas celulares com base carbono são vivas? Existem pelo menos mais 4 tipos de átomos com as mesmas qualidades do carbono, dos átomos conhecidos neste mundo. Mas quantos mundos podem existir? Quantos outros átomos desconhecidos? Quantas formas de vida? Agora eleve isto a milionésima potência para que vislumbremos a riqueza da vida cósmica!
-Quer dizer que, desde o primeiro momento, a lei da existência, da vida, é uma constante?
-Sim, pois este é o princípio dos deuses e do Um, o Inominável! Nisso coloco o absurdo de certas superstições que limitam a existência a este mundo e a formas humanas. Como ousam recusar a reencarnação, a metempsicose e a metensoplasmose? Negam a própria Eternidade e a Salvação que tanto procuram!
-Portanto, sendo a existência uma constante, a evolução igualmente. Eu lembro agora: uma vez criados, muitas vezes nascidos! Mas como era nos primeiros momentos? Como a existência veio a desenvolver a matéria física, carnal, que é considerada inferior?
-Bem colocado! Mas isto é devido à confusão de alguns espíritos humanos que se arrogam o privilégio da superioridade e de alguns humanos ainda existentes mal orientados! Eu digo isso: a existência varia conforme o meio em que seus indivíduos estão presentes, tal como Darwin previu. Sendo o princípio pura energia, os primeiros indivíduos foram sendo formados de energia, ou como devemos mais apropriadamente definir: espíritos. Tal como neste mundo, nem todo indivíduo sobrevive, alguns evoluem. Ora, se neste mundo coloca-se como convenção de que o humano é o melhor produto da evolução, como podemos estranhar que no meio espiritual as entidades desenvolveram corpos similares ao dos humanos?
-Talvez por causa do senso de que não há superfície ou meio ambiente no mundo espiritual.
-Mais absurdos baseados em preconceitos. Este é o maior defeito da ciência: ela tenta enquadrar todo um Cosmo imenso em vagas teorias baseadas em evidências de baixa amostragem. Tal como para nós o nosso mundo é bem concreto e o espiritual é abstrato, para as entidades este mundo é abstrato, sendo o mundo espiritual sólido.
-Bem, eu imagino que houve então no mundo espiritual o mesmo que ocorre no nosso: formação de grupos, clãs, cidades, Estados, Reinos e Impérios.
-Sem dúvida! O mundo espiritual contém inclusive selvas inexploradas, feras, nativos em cultura bruta, etc.
-Existe alguma condição ou qualificação para que nós, humanos deste mundo, possamos entrar em tal Cosmo?
-Esta é a parte mais engraçada, sobretudo aos que buscam em religiões alguma garantia ou salvo-conduto para receber a Eternidade: NÃO HÁ! Essa é a melhor parte das antigas tradições: a passagem entre os mundos era feita em total tranqüilidade e paz, bem diferente dessa condição cristã tão complexada e traumatizante!
-Então por que as pessoas buscam seguir este engano?
-Infelizmente, para alguns indivíduos atrasados, mental e espiritualmente, isso é necessário. Eles são incapazes de aceitar a natureza humana e a existência carnal, em geral são pessoas frustradas, fracassadas, recalcadas, incompetentes. Nestes indivíduos, a mensagem de um deus moribundo e fraco, que hipoteticamente se tornou grande e poderoso, os faz alimentar a esperança de que igualmente consigam isso, se se associarem a tal aberração.
-E vão conseguir? O que irão verdadeiramente obter?
-Em uma simples resposta: nada, irão continuar a existir miseravelmente, alimentando seu deus vampiro.

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