2 de mai de 2009

Fichados

Duas horas depois o dr Calabar chega ao seu distrito, pede ao seu escrivão que lavre o boletim de ocorrência, o relatório da diligência e o termo de prisão dos acusados para levá-los ao juizado a fim de que estes respondessem ao processo em andamento. Em quanto um oficial do distrito colhe as impressões digitais, o escrivão conduz os indiciados nas perguntas de praxe, sem fazer muitas perguntas ao delegado.
Dr Calabar fecha-se em seu gabinete particular para enfim tentar relaxar seus nervos. Tremendo-se todo ele tentava entender a experiência pela qual passou, sentindo sua cabeça martelar com as dúvidas que lhe assaltavam a pobre alma fiel. Ele é um típico exemplo da pessoa que vive uma vida seguindo os padrões que são passados por outros como verdadeiros, seu pobre cérebro sequer consegue conter a tempestade de idéias e pensamentos que o assolam. Apesar de ter vivido toda uma vida sem ter exercido aqueles 5% normais de qualquer outra pessoa, ele agora tem um cérebro que exige explicações e que não se contenta mais com os moldes anteriores. O coitado do dr Calabar descobre que possui raciocínio, consciência e mente que quebram com fúria os cabrestos impostos pelos dogmas religiosos.
O que acontecera? De onde viera tal energia? Quem a estava controlando? Onde estava o poder do Cristo? Onde estava a unção dada por Miranda? Onde estava a proteção garantida por Uriel? Quem seria aquela presença doce que fazia sua alma implorar por reconciliação?
Com tanto poder, seria tal presença mais poderosa que Cristo? Os prisioneiros teriam razão em declarar que Cristo é um Usurpador e seu Deus apenas mais um dentre tantos? Quantos seriam, quantos haveria, de onde vieram, o que desejam realmente da humanidade? Estariam os cristãos tão enganados e iludidos? Estariam os cristãos entregando suas almas a um impostor carrasco? Estariam os cristãos repetindo o erro de tantos outros monoteístas, ao alimentar uma entidade parasitária? Aonde isto iria levar a humanidade?
Dr Calabar remói silenciosamente suas dúvidas, fechado em seu gabinete, em seu mundo cheio de mitos cristãos, sua alma arrepia diante de tais pensamentos que, em outros momentos, seriam considerados impuros e por instinto a alma se cala porque sabe que tal questionamento pode conduzir a respostas ou ao assassinato pelas mãos daqueles que antes eram seus irmãos em Cristo. O telefone propõe uma trégua para seu coração conturbado, mas sentindo na alma a certeza de quem estaria do outro lado da linha.
-Pedro, aqui é Milton! O que está fazendo? Por que prendeu meus amigos?
-Oi, Milton. Faz um tempo que não nos falamos. Desde nossa formatura na Academia de Polícia, né não?
-Olha, você sabe muito bem, tanto quanto eu, de que essa prisão pode até ser legal, mas foi manietada!
-Calma, Milton! Emanoel e Zeheler quiseram se entregar. Eu estou me arriscando por liberar Silveira e o gringo russo.
-Como é que é? Deixa eu falar com eles, eu exijo, em nome da honra da Polícia Militar do Rio!
-Você é doido? Tá querendo perder o cargo? Eles se dispuseram a se entregar exatamente para livrar nosso couro! Eles me pediram para avisar a qualquer que tentasse contatá-los para que verificassem seus e-mails. Nada foi perdido ou desperdiçado. Foi o que eles me disseram!
-Isso, isso, é loucura! Que droga! Nós havíamos acertado de que eu era o líder, eu devia ser o primeiro a saber do que estava ocorrendo!
-Dá para esperar? Liga depois de 1 hora, como se fosse um delegado pedindo informações sobre o inquérito. Afinal, o fato ocorreu em uma área próxima da sua jurisdição. Enquanto isso, eu sugiro que esfrie a cabeça e leia seus e-mails.
Milton mal podia crer que falava com o velho colega de Academia, aquele CDF puxa-saco, baba-ovos dos professores, sem qualquer capacidade, habilidade ou competência para seguir carreira na Polícia Militar. Naquele curto diálogo com o seu colega de profissão, Milton percebeu pelo tom de voz e postura de segurança de que Pedro havia mudado, ele devia estar passando por um difícil e sofrido processo de reciclagem e reaprendizagem, pelo qual ele passara e sentia que, para o benefício de Pedro, ele deveria seguir o caminho com suas pernas. Antes de ativar seu note-book, acessar a internet, ativar seu provedor de e-mails e passar para a leitura, por um lapso se questiona se vale a pena querer ser o líder, quando é evidente que a coisa toda é grande demais para carregar sozinho tal responsabilidade, sobretudo quando em tais territórios é óbvio que a condução do CR deve vir de uma bruxa.
Não se surpreende ao notar que as primeiras mensagens na sua caixa postal de entrada vêm exatamente de Rosângela, seguida de inúmeros e-mails contendo trechos e mais trechos de antigos pergaminhos, de inúmeras tradições antigas, vindas das mais diversas partes do mundo, das mais diversas pessoas, culturas, países, dos quais o único interesse era o de ajudar a resistir e a combater o totalitarismo cristão. Milton respira mais calmo e aliviado, pois vê na tela de seu monitor que ainda existe esperança para a raça humana.
Enquanto isso, em algum bordel perdido em meio ao Brasil, Wanderley consegue estrear sua peça cheia de piadas e motejos em cima do cristianismo, para delírio e deleite de uma platéia selecionada exatamente por meio de e-mails, home-pages e organizações, compostas de pessoas simpatizantes do CR, do paganismo, das antigas tradições, da filosofia, da poesia, do teatro, das artes em geral e mesmo do ateísmo e anarquismo. No momento não sei se devo dar um resumo da ópera ou entrar mais uma vez nos escaninhos jurídicos e dar um resumo das ações propostas contra o CR. Depois eu resolvo. Chega e paz!

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