2 de mai de 2009

Fuga para o Rio

Ezequiel Batista acordou cedo naquela manhã, dispensou o café da manha que geralmente recebe de seus missionários na sua pequena e singela igreja em algum local de Cuiabá, Mato Grosso do Sul, pega aquele velho maverick que recebeu de doação de um político local e parte apressado, sem pegar mala, lanche de viagem nem avisa para onde se dirige. Pela primeira vez em seus 50 anos de vida Ezequiel toma uma decisão que irá mudar sua vida e todo seu prestigio diante da Comunidade de Jesus e do Exército do Cordeiro, ele tem um lapso de humanidade, abandona toda sua cobiça, orgulho e carreira de sacerdote de Cristo.
Ele sabe que, o fato de ir em direção ao Rio, depois da ordem direta de Miranda para começar as operações de execução sumária que o cristianismo mostrou-se hábil em seus 19 séculos de existência, o tornaria suspeito e o incluiria na lista de alvos. Todos aqueles anos, estudando a finco a bíblia, decorando cada frase, memorizando as inúmeras homilias proferidas por inúmeros pastores evangélicos, não lhe serviram para conhecer a Deus, não o que realmente importava e verdadeiramente era autor da Criação.
Para usar uma palavra na gíria, ele caiu na real, após seu rápido e chocante encontro com seu filho, Milton. Justo por este, Milton, que era para ele como uma ovelha desgarrada, uma alma sem salvação, redenção ou merecedora da misericórdia de Cristo, seu outrora Mestre, Senhor, Deus e Salvador. Enquanto corria pela estrada no limite que o motor do maverick agüentava, tudo que importava era Milton, ele queria finalmente buscar ao filho para que este salvasse o pai. Uma interessante ironia inversa ao evangelho. Cristo realmente sacrificou-se por nós ou tentou salvar a obra de um Carrasco insensível e incapaz de reconhecer suas responsabilidades? Milton sabia da resposta e o velho pastor Ezequiel procurava a resposta no filho.
Algo que muito pseudo-adulto devia considerar, nossos filhos nascem mais sábios, mais espertos e mais preparados que seus obsoletos progenitores. Hoje em dia é insanidade achar que ainda exista ingenuidade e inocência nas tenras idades ou de que apenas se age com arbitrariedade e individualismo quando se atinge a adolescência. Nossa sociedade reage com espanto diante da realidade, tal como o artífice cego e esquizofrênico pregado pelos tele-evangelistas, negando ser o autor da obra. As respostas e soluções para os problemas que nós mesmos plantamos está na ação da coletividade, ponhamos isso em mente e em ação.
Ao entrar na divisa entre Mato Grosso do Norte e Minas Gerais, Ezequiel pressente que algum destacamento do Exército do Cordeiro está em seu encalço. Na falta de melhores respostas, Ezequiel somente entoa aqueles velhos hinos evangélicos, porém sente asco ao invés do puído êxtase. Ele pede incessantemente para seus antepassados, os espíritos, demônios, ou o que quer que seja, que o ajudem a escapar desses lobos, ele queria antes de tudo falar com seu filho, antes de ser apedrejado ou crucificado por uma ordem que ajudou a erguer. Ele, mais que Miranda em pessoa, conhecia o instinto e o gosto por sangue desta matilha, uma ferocidade que faria um fundamentalista muçulmano ter inveja. Eu gostaria de deixar aos leitores algo como uma perseguição de carros bem ao estilo de Hollywood, mas não estou com vontade.
O maverick bufa feito boi no cio, atravessa o Estado de Minas Gerais, comendo cada milha em segundos, fazendo com que Ezequiel consiga chegar com relativa facilidade na cidade do Rio, onde ele percebe que seus caçadores não o seguem mais, coisa que ele mesmo preparara, algo como respeito territorial. No Rio, ele sabe que encontrará não somente um destacamento ávido para pegá-lo, mas também muitos dos soldados do tráfico, comprados pelos muitos dólares doados por Miranda. Ezequiel passa incrivelmente incólume pela linha vermelha, sem sequer ouvir um estampido, consegue chegar enfim ao distrito policial em que seu filho trabalha. Rapidamente, sai do maverick que estava em seu último fôlego, dribla as muitas pessoas, funcionários, clientes ou indiciados e se dirige diretamente ao escritório do delegado onde pode se ler na porta: dr Batista. Silveira mal consegue acreditar no que está vendo. Ele larga o suspeito de roubo e o boletim de ocorrência nas mãos do primeiro que encontra e também vai ao escritório de seu chefe, temendo o pior. Ao entrar, depara-se com o velho pastor, Ezequiel, em prantos, pedindo perdão ao seu filho, por tudo que houvera entre eles. Outro que mal cria em que via e ouvia era Milton, diante do pai que resolve, sem aviso, reconhecer suas falhas e tentar se reconciliar com ele.
-Oquei, oquei. Tudo bem, pai. Silveira, traga um copo com água e açúcar. Agora sente-se e me conte, o que houve e o que veio fazer aqui tão longe de sua preciosa missão?
-Ohhh. Não seja cruel. Eu sei que mereço, mas não agora. Eu sei que sua visita teve um propósito e eu pude ver naquele momento o quanto eu errei. Mas o fato é que existem muitos, milhares, milhões que neste exato momento pensam como eu pensava. Seja lá quem seja parte do CR, o seu grupo clandestino de ação contra a Comunidade Luz de Jesus e outros grupos evangélicos, todos eles correm perigo de vida!
-Como? Perigo? De quem? Do quê? Por que agora?
-(Bebe avidamente o copo oferecido por Silveira) Obrigado, Silveira. Bom, não é motivo de orgulho para mim agora, mas eu sou aquele que idealizou e implementou o destacamento armado da Comunidade Luz de Jesus, aquele grupo paramilitar que Miranda vem negando com tanta veemência diante da mídia, o Exército do Cordeiro. Bem, acabo de receber do Profeta do Apocalipse a ordem de sinal verde, ação total.
-Quê? Miranda perdeu totalmente o controle? Ele exporá diante de todos aquilo que com tanto trabalho o cristianismo vem mantendo em sigilo desde seus primórdios! Mas o que o fez perder totalmente a compostura?
-A bem da verdade, os informes que recebi de meus agentes foi de que ele e seu sócio maior, Uriel, não ficaram nada satisfeitos com a vitória que seu grupo conseguiu na justiça. Sem falar que existe um prazo para que ele converta o Brasil completamente para Cristo.
-Ainda estou boiando. Que prazo? Quem é Uriel?
-Eu pensei que você soubesse. Bom, vamos a um resumo: Cristo está realmente voltando e escolheu o Brasil para isso, pode calcular que é imprescindível que esta chegada só será possível se houver uma comunhão dos credos e das mentes dos habitantes. Uriel foi encarregado de preparar o terreno, através dos inúmeros grupos evangélicos espalhados pelo mundo. O Comando Tribulação tem uma atenção especial nesta trama, mas o foco dos planos do Cordeiro está centrado na Comunidade Luz de Jesus, onde Uriel encontrou em Miranda o parceiro necessário para iniciar a Segunda Revolta dos Anjos contra a tirania de Iahvé. Eu creio ser desnecessário dizer quais são as verdadeiras intenções de Uriel.
-Isso é loucura! Nós estamos no ponto zero do Apocalipse? Nosso pequeno grupo pode impedir tal epifania nazista?
-Exatamente. Ou você pensa que Sodoma e Gomorra foram meras lendas? Deus, isto é, o Usurpador, como vocês apropriadamente o chamam, só consegue se manifestar e exercer a sua tão propalada onipotência com a anuência dos Homens.
-Isso me lembra uma questão. Por que o senhor veio até mim? O que eu tenho que veio buscar?
-Não sabe o quê? Respostas, meu caro filho, respostas a este espírito conturbado e inconformado com as respostas áridas dos Testamentos.
-Bom, neste caso, eu devo orientá-lo a nossa guia espiritual, Rosângela, a bruxa.
-Que seja logo! Eu quero ver e compreender a verdade!

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