2 de mai de 2009

Histórias pessoais

Na Holanda, Derrer aproveita seu exílio da terra brasilis para continuar com suas outras empresas pelo mundo em suas operações escamoteadas para o Advento de Cristo, enquanto lembra sua breve história. Seus pais foram para os EUA durante a 2ª Guerra, juntamente com seus avós, para fugir da loucura nazista. Nasceu e cresceu em um dos muitos guetos que ainda existem para estrangeiros nos EUA. Como muitos imigrantes, ele teve que aprender a lei das ruas, o que o fez perder toda a inocência e sentimentos. Tal vida nas ruas o levou a ingressar nas máfias instaladas, foi com os carcamanos que ele começou a ter contato com uma interpretação muito singular da bíblia. Apesar de seus pais fazerem parte de um ramo de judaísmo conhecido como Testemunhas de Jeová, aos 12 anos recebeu batismo, comungou e crismou como católico. Graças aos seus contatos com os diáconos e vigários da região, conseguiu cursar uma escola e entrar numa faculdade, tendo lá seu contato com o ramo bem mais profícuo do cristianismo, os grupos pentecostais e derivados. Ao sair da faculdade, se formou em química, genética, infectologia e teologia, o que o levou a encontrar muitos investidores e admiradores no meio evangélico. Ele lembra daquele vôo mágico que o levaria de volta à sua pátria, onde ele começaria sua carreira como especialista e começaria seu projeto de construir um laboratório próprio. No embarque foi abordado pelo comandante de vôo que se identificou como sr Raymond, um recém convertido ao Senhor Jesus que tinha uma mensagem e uma oferta ao jovem cientista. Naquele momento, as mensagens do Apocalipse fizeram sentido e ele havia sido convocado pelo Rei dos reis com o propósito de preparar seu retorno. Não demorou muito para que, com a ajuda financeira e política do Comando Tribulação ele conseguisse alcançar o respeito e o reconhecimento no meio científico, tornando-o o jovem de 20 anos que montou os maiores e melhores laboratórios ao redor do mundo.
Ele lembra com saudades da época em que aceitou o desafio de montar uma estrutura igual no Brasil, dando na fundação do Laboratório Default em Maceió. Ele sabia que os recursos materiais e humanos eram escassos e que ele teria que colaborar com a Comunidade Luz de Jesus, na figura execrável de Miranda, pois o local da chegada de Cristo estava definida para este país. Como bom soldado, aceitou e realizou os planos do Altíssimo sem contestação ou reclamação e realizou com excelência. Isto o lembrou que seu exílio forçado foi causado pela imperícia e arbitrariedade de Miranda ao expor cedo demais em um desafeto seu projeto mais ousado: o vírus shift. Desde o começo desta sociedade forçada ele sentiu que o Comando Tribulação estava colocando muita responsabilidade e poder nas mãos de um pastor evangélico mais preocupado com suas conquistas pessoais que com a causa de Cristo. Sua frustração não o faz duvidar ou questionar os Desígnios Divinos do Senhor, continua confiante e obediente de que Cristo dará o valor certo aos seus fiéis.
Um comunicado vindo via satélite interrompeu o saudosismo de Derrer: em um de seus poços de introspecção petrolífera no Ártico, outro tipo de substância aflorava, azul e gelatinosa, que provocava um curioso processo de cristalização em qualquer material com que entrasse em contato. Segundos após, outro comunicado assustado de sua outra base, no Antártico: a plataforma afundou, revelando aos técnicos pasmos a existência de alguma forma de construção, com estranhos sinais gravados nas paredes feitas de materiais indeterminados. Isto o colocaria numa situação um pouco incômoda de ter que apagar colegas e funcionários, mas ligou imediatamente aos responsáveis pela manutenção da segurança mundial do Comando Tribulação: o comandante Buck e o general Abdullah. Isto daria alguns pontos junto ao Senhor dos Exércitos, quem sabe isto poderia ser útil para a remoção daquele que realmente o incomoda: Miranda. Por causa da valentia irresponsável deste, o CR poderia chegar aos elementos que mostrariam como ele desenvolvera o vírus shift: uma fonte ectoplasmática, energia espiritual ou moléculas aminoácidas que lhe proporcionaram novas espécies de RNA, vindas exatamente dos deuses antigos de quem, tais ruínas no Antártico, são obras remanescentes.
Uma guinada, estamos na África, com Lugalu remoendo as palavras duras de Nana. Durante sua viagem de volta ao Senegal, uma passageira entra no ônibus, senta bem ao seu lado e sem cerimônia começa a conversar com ela:
-Vixe! Nana ainda tem essa idéia fixa de que é mãe de todos nós e ainda se sente responsável por nossos erros? Eu bem que disse a ela que ela permaneceu tempo demais neste mundo, cuidando de quem não precisa.
-Quem é você? De onde veio? Como consegue falar banto tão fluentemente?
-Meu nome é Rosângela, sou de Maceió, Alagoas, Brasil e eu falo com o coração, não com a boca. Tal como você, eu sou uma bruxa e vim unicamente para responder suas dúvidas, provocadas pela melancolia de Nana.
-Ah! A bruxa do CR! Eu ouvi falar do seu nome, mas não imaginava que tinha tanta habilidade! Eu gostaria de saber: será que temos a autoridade e a competência para agirmos?
-Sim! Basta ver as conseqüências do cristianismo! Ele não foi uma evolução, mas a implantação do pior totalitarismo, nem é o credo mais adequado para nossa raça. Aceitar que tal aberração seja uma característica necessária ao que se convenciona como sociedade moderna é autorizar o aculturamento e a extinção da diversidade cultural tão necessária para nossa espécie!
-Afinal, o que é bom ou ruim? O que é o mal ou o bem? Nós alcançamos a maturidade necessária para julgarmos tais conceitos?
-Lembre a lei das antigas tradições, copiada vergonhosamente pelas outras religiões: façamos aos outros o que desejamos para nós mesmos. Precisamente por ainda nossa gente estar adormecida no engano que é necessário sacudir, nosso tempo está passando e continuamos a engatinhar! Hoje, agora, nós temos que nos erguer e caminhar com as próprias pernas!
-O que de produtivo as antigas tradições trouxeram para a humanidade? Por que não aparece o desenvolvimento da compreensão da natureza em grupos sociais ainda primitivos? Como podemos acusar a Cristo por seus crimes quando em nossas mãos correu muito sangue inocente? O que fez os antigos deuses ficarem tão ausentes, por que deixaram que Cristo dominasse? Diante do jogo sujo de Cristo por que os deuses ainda continuam jogando limpo?
-Ora, nunca buscamos a santidade ou a virtude, os processos de conhecimento e evolução são impossíveis de existir neste sentido tão restrito. Não é de se estranhar que, durante o domínio da Igreja Católica ou qualquer outra superestrutura religiosa monoteísta, não houve progresso nem produção de conhecimento. Nisso devemos incluir também que tal processo deve ser trilhado de forma consciente e voluntária, as antigas tradições pretendem conduzir a humanidade a este estado de maturidade, em direção ao futuro! Quanto aos deuses, eles estão bem aí, acordando igualmente como os humanos desta prisão psicológica que o Usurpador construiu. Tal como nós, os deuses também têm suas convicções e princípios, não tem cabimento nós exigirmos deles a negação de algo que observamos. Neste momento, nós precisamos dar uma chance a nós e aos deuses, para combater e dar fim a tal tirania. Não se trata de agir com igual fanatismo e maniqueísmo dos cristãos, nem é retaliação ou vingança, mas exatamente de dar a quem é merecida a atenção e o respeito dedicados indevidamente ao Usurpador. Satisfeita?

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