2 de mai de 2009

Morre Calabar

Poucos minutos depois de meu capítulo anterior, Ezequiel percebe uma movimentação estranha pela rua, pessoas gritando, apavoradas, fugindo de um arrastão promovido pelo crime organizado. Do outro lado do Largo da Carioca, outras pessoas fugiam da ação violenta do Exército do Cordeiro, colocando ambos os grupos com apenas 3 opções: refugiar-se no pequeno teatro, usar a rua que adentra numa favela ou arriscar-se a subir o morro íngreme e pedregoso. Em poucos instantes, o Largo da Carioca iria se transformar em um local semelhante à Praça da Paz em Pequim, onde populares foram massacrados pelo aparato opressor do governo que estas mesmas instituíram. Neste palco similar aos circos romanos, muitas vidas seriam sacrificadas, em nome de Cristo. Sandra e Emanoel se aproximam das pessoas que se acotovelavam, prontas para o abate, ouvindo de uma e outra o que estava ocorrendo, enquanto Ezequiel se agarra a Zeheler, tão apavorado e gelado quanto estas pessoas e Wanderley, bem atrás dos dois senhores, explicou suas suspeitas numa sentença:
-É coisa do Miranda. Só pode ser.
Sandra volta para seu avô para confirmar que em ambos os grupos, havia uma ameaça séria contra todos simplesmente por causa de suas opções religiosas ou sexuais. O grupo que corria dos soldados do tráfico ouviu o boato de que estes tinham como objetivo limpar seus domínios dos que não aceitam a Jesus como Salvador e o que corria do Exército do Cordeiro tinham recebido ameaças de morte por terem opções diferentes. Ezequiel conhece esta estratégia e operação, ele havia criado, implementado e treinado a todos os que se propunham a agir através de armas pela causa de Cristo.
Da rua que entrava na favela, um destacamento policial surge, descendo das viaturas com as armas em punho. Era todo o efetivo do 22º distrito, tendo em sua frente o delegado, dr Calabar, imediatamente reconhecido por Ezequiel como colaborador deste sinistro esquema. Mas Zeheler não se assusta com a confirmação de sua neta ou a informação dada por Ezequiel, chama Wanderley e se dirige calmamente para o centro, se juntando às pessoas apavoradas, acalmado-as, consolando-as. Ezequiel não entende o que se passa nem o que Zeheler diz às pessoas, mas Sandra, Emanoel e Wanderley instintivamente fazem o mesmo, deixando Ezequiel de frente ao leão, pronto para devorá-lo.
-Aqui quem fala é o dr Calabar, do 22º distrito da cidade do Rio. Os senhores estão infringindo a lei, ordeno que se afastem dessas pessoas, larguem as armas e se entreguem!
-Ora, o que é isso, Pedro? Vai negar o Senhor, como fez o apóstolo? Você é um de nós e sabe que essas pessoas desafiam a majestade e a autoridade do Rei, o Cristo. Você, como conhecedor da Lei, da Palavra e do Reino devia saber como devem ser tratados aqueles que resistem à vontade de Deus!
-Engana-se, zelote! O que vejo em minha frente são cidadãos do Rio, pessoas que jurei defender e proteger ao assumir meu cargo como delegado! Não serei mais um fariseu, que defende com sangue inocente uma lei abjeta, de um deus tirano!
-Eu vejo que os boatos a seu respeito estavam corretos. Você não teve uma fé suficientemente forte para superar as ilusões que o Anticristo pôs em seus olhos! Eu tinha grandes esperanças e planos para você, Pedro. Eu estava pronto para entregar o comando do Exército do Cordeiro da região sudeste. Em pensar do quanto eu o treinei nas Palavras e o apoiei na fé em Nosso Senhor, Jesus Cristo! Bem, decepções não devem abalar um crente. Eu devo dizer então adeus a Pedro e eliminar mais um agente do Anticristo.
-Eu poderia agradecer, Soares, se eu ainda estivesse sob a hipnose que você habilmente planta em seus programas televisivos. Seu Mestre deve estar bem surpreso e agradecido com seu sucesso em espalhar o nome desta mentira!
-Chega! Sua ofensa a Deus só pode ter uma resposta: com sangue! Preparar!
O som de milhares de armas sendo engatilhadas é um som seco, metálico, mudo e decidido como a guilhotina diante do pescoço do condenado. As pessoas caem de joelhos, choram, algumas se borram, pensam nos projetos, riquezas e filhos que deixarão ou nunca realizarão, fecham os olhos, amaldiçoam, perdoam, lembram faltas, esperam piedade, pedem indultos, rezam em catatonia, cantam em cacofonia, esperam. A espera é a pior parte da condenação, da execução. O segundo que precede a ação do carrasco é pior que imaginar a dor, a carne sendo dilacerada ou aquilo que se pode seguir após o alívio e o silêncio da morte física.
Pois bem, imaginem uma orquestra, uma ópera. Os instrumentos são armas de fogo, de diversos calibres, vindo de várias direções. A ópera entoa os disparos, os zunidos, os ricochetes, os corpos sendo atingidos, o palco se enche da fumaça da pólvora e cheiro de carne queimada, macerada, perfurada. O coro é dos atingidos e moribundos, sobreviventes tentando se esquivar das balas e retirar os corpos que caem em sua direção. Mais uma vez, o terrível silêncio.
O Exército do Cordeiro foge em retirada, os policiais que restaram prendem alguns bandidos e pedem apoio para recolher os corpos e atender aos feridos deixados neste campo de batalha. Mas incrivelmente, aquelas pessoas que estavam bem ao centro de todo esse ciclone de chumbo não sofreram um arranhão sequer. Ao redor de todos, apareceu uma barreira de espíritos que os mantiveram a salvo. Ezequiel está em choque, acaba de presenciar a maior evidencia de que existem vários tipos de espíritos e que, aquele que antes ele considerava o Senhor, não era tão poderoso quanto se dizia. Ele sai do meio daquele grupo de pessoas e dos seus urros de vitória e vingança, trôpego e chapado, indo em direção aos policiais, para a liberdade, para a segurança, quando percebe uma baixa entre eles: dr Calabar, mas que estranhamente não mostra ferimento algum.
-E-e-estão todos bem?
-Eu-eu-eu-acho que sim. Sim, estão todos bem.
-Ótimo. Então é isso. Este é o mundo dos espíritos, o além?
-É-é-é. É o que parece, um pedaço do Céu veio parar na Terra.
-Que droga, homem! Agora que eu estava começando a entender as coisas! Eu espero que ao menos você consiga. O que faço? A quem devo entregar minha alma?
-Eu-eu-eu não sei. Eu achei que sabia. Deus, como eu fui enganado! Nem sei como chamá-lo, nem como tratá-lo ou como chegar a Ele!
-Cara, legal! Acho que eu-eu-eu vou na frente e te digo.
Nas mãos de Ezequiel, Pedro Calabar deixa de existir em seu corpo carnal. A cena poderia ser bem utilizada como uma Pietá do paganismo. Ezequiel ri da minha inventiva, em sua mente tudo que interessa é saber lidar com tamanha ignorância sobre o mundo espiritual e a inveja deste indivíduo que passou desta para melhor e vai aprender diretamente da fonte. Eu gostaria de encerrar lembrando aos possíveis leitores da minha posição quanto a este fenômeno: cada existência tem seu meio, sua realidade, então cabe a nós aprendermos em vida como viver tal realidade e que se deixe para o além as adaptações necessárias para tal realidade. Eu ainda acho uma tremenda bobagem darmos ouvidos ao espiritismo, pois não estamos nos dando ensinamento algum, apenas estamos alimentando o orgulho e a vaidade desses ditos espíritos superiores. Eu entrei em mais e melhores detalhes em meus textos, não me culpem se não a leram. Protestem e exijam de suas editoras! Paz e chega!

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