2 de mai de 2009

O deus encarnado

O Largo da Carioca, ponto de encontro de artistas, universitários e filósofos, local em que se entoam os hinos e os louvores profanos, está em uma atmosfera pacífica, pessoas entram e saem como se não estivessem sob o alvo de balas perdidas nem sob o medo plantado por esta nossa sociedade, medo cultivado e estimulado por nossa omissão e complacência diante das nossas responsabilidades como cidadãos.
Ezequiel está em um estado de graça que nunca experimentara enquanto era um pastor evangélico em Cuiabá, conversa com rapidez e golfadas de palavras com o paciente Zeheler, que tenta explicar a verdade sobre Abraão, Iahvé e os deuses antigos. Atrás deles seguem Sandra e Emanoel, comentando com o autor e ator principal da peça,Wanderley, o estranho sucesso e receptividade do público ao seu trabalho intenso e polêmico. Nós, escritores, sabemos o quanto o público e as editoras fogem de polêmicas ou obras que instiguem o questionamento consciente.
-Quer dizer que os hebreus foram, em seus primórdios, tão pagãos quanto os romanos?
-Oh, sim! Nós desenvolvemos esse sentimento sobre o mundo espiritual e os deuses quase pelos mesmos métodos, necessidades e sonhos que foram se despertando conforme nosso povo se formava.
-Quando, como, por que e quem começou toda essa tendência monoteísta?
-Quando, na Idade do Bronze. Como, isso foi um processo que durou mil anos. Porque, por nossas características como indivíduos. Quem, foi Abraão. Nosso povo originou-se de nômades, comerciantes e escravos em outros tempos. Uma piada: os judeus são monoteístas por ser mais econômico cultuar um deus apenas.
-Oquei, mas onde entra Iahvé e Abraão nesta história?
-Iahvé associou-se com Abraão pelo seu grau de importância e extensão familiar. Nisto a torah e a bíblia são coincidentes: foi exatamente um contrato lucrativo para ambas as partes. Moisés ajudou, espalhando esse conceito plantado por Abraão entre as diversas tribos hebraicas. O que se seguiu, demonstrou que Iahvé pretendia: conquistar o trono deste mundo e receber a coroa como deus único, através da crença humana que lhe dava poder, energia e disposição dos homens para perseguir e eliminar outras crenças. Eu acho que ao eliminar aqueles que crêem em outros deuses deixavam estes mais fracos, famintos, impotentes, levando-os a sumirem.
-Agora me explique como e por que Iahvé volta ao meio humano para ressurgir como Yheshua.
-Pois é. Algo que estranhamente é omitido pelos pastores evangélicos. Durante mil anos, onde dominaram os reis de Judá e Israel, Iahvé parecia estar ausente. Os judeus foram conquistados e escravizados por muitos outros povos, até aquele momento em que Yheshua apareceu entre os homens para tornar-se o deus encarnado. Agora começa a encrenca.
-Quer dizer que tal abandono e retorno foram planejados?
-Oh, sim, porque era necessário aos descendentes de Abraão e Moisés terem uma consciência como um povo, que chamamos hoje em dia de judeu. Iahvé precisaria estratificar numa só alma as diversas tribos hebraicas, para isso foi necessário apresentar-se como sendo o Senhor. Com Moisés, ajudou-o muito o fato que as diversas tribos passavam por uma época de escravidão, o que implementou aquele sentimento de raça perseguida, eterna vítima, que perdura até hoje. Em sua ausência, deixou suas cobaias experimentarem o sentimento de abandono e a opressão dos governantes. Isso fez crescer este sentimento que é tão incentivado pelo cristianismo em suas múltiplas facetas: o complexo de culpa, a necessidade de expurgar a carne do pecado pelo sacrifício, os ideais de pureza e virtude e essa vontade ferrenha, a disciplina militar acima das necessidades naturais.
-De que forma Iahvé torna-se Yheshua?
-Você, que estudou tanto a bíblia, pergunta a mim? Eu mesmo ainda não estou muito convencido do processo, mas evidentemente Iahvé possuía conhecimentos e meios para tomar de sua própria essência e implantar em um feto humano ou tornar-se ele mesmo um feto. Ele o fez para que os homens reconhecessem nele o Senhor e o seguissem, para a próxima e mais efetiva guerra contra os outros deuses, para realizar os sonhos de grandeza que desejava. Ou será que, em todas as suas pregações, nunca se atinou ao fato do por que, se este Senhor fosse único, teria necessidade de ser louvado e glorificado pelos homens?
-Até 3 dias atrás, não. Eu agora compreendo. Nem Iahvé, nem Yheshua são o Senhor ou o Deus. E quanto a Allah?
-Surpresa, surpresa! Na guerra precedente, Iahvé vencera Marduk e Baal, mas houve sobreviventes, Allah é descendente de Baal e tem as mesmas pretensões de Iahvé. Consegue entender por que existe tanto conflito entre cristãos e muçulmanos? Esqueça as palavras dos profetas e as boas intenções das religiões, a doutrina de ambos é violenta porque os inspiradores são violentos.
-Quer dizer que a perspectiva de Anne Rice de que somos o que somos porque Deus, o Cristo, assim o quis, para compreender-se, entender sua existência e de que forma uma existência mais simples pode formar uma mais complexa?
-Bom, sim, se você gosta de se alimentar somente de arroz. A obra intitulada Memnoch tem uma boa perspectiva, mas pode muito bem ser mal-interpretada caso as pessoas não notem algumas metáforas deixadas em suspenso no contexto. Eu prefiro um certo escritor, que se apresenta como escritor do profano de que se a matéria, a carne, possui tanta força e poder, então tal natureza é tão divina senão superior a de seus geradores, os deuses.
-E qual é a perspectiva das antigas tradições?
-De que a essência que forma tudo está presente em todos os indivíduos, deuses ou humanos. A única diferença é que os deuses conhecem e sabem como manipular tal essência. Fora isso, os humanos tem a mesma capacidade, inteligência e habilidade que os deuses.
-O que nos falta para ter tal sabedoria e conhecimento?
-Adivinha? Maturidade, responsabilidade, consciência. Nós ainda nos comportamos feito crianças mimadas, sempre querendo e exigindo mais para si, tomando e consumindo o que desejamos, sem qualquer respeito à natureza ou à comunidade. Nós estamos assistindo uma recuperação das antigas tradições exatamente para lembrar isto à humanidade e sobretudo que a solução cristã não produziu qualquer avanço ou evolução nesta maturidade tão imprescindível. Acho que é desnecessário explicar ou dar exemplos do porquê afirmo tal coisa, a própria história do cristianismo demonstra.

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