2 de mai de 2009

O russo e o hebreu

Após um merecido descanso e um belo café da manhã com frutas da época, Kraspov arruma-se todo para encontrar-se com o famigerado CR, para com eles compartilhar do pergaminho que seu domovoy tinha mais a expectativa de conversar com Zeheler, nome de uma família conhecida, inclusive na Ucrânia, pelos seus cientistas com alto grau de intelecto. Ele espera ter uma conversa entre cientistas, para compartilhar desta dificuldade que ele encontra em assimilar tantas percepções até pouco tempo adormecidas. Ele tenta sair sorrateiro, para ter um pouco de sossego de Olan, que sempre lhe puxava as orelhas, pretendendo ter mais privacidade com os componentes do CR e contava com a sorte de poder conversar com a dita bruxa do grupo. Na recepção do hotel em que se hospedara, encontra Emanoel e Silveira prontos e dispostos para o empreendimento.
-Então? Fez boa viagem sr Kraspov?
-Excelente. Durante o trajeto tive a oportunidade de analisar algumas das obras citadas. Acho que o sr Maxwell não está exagerando, nem o sr Bacon está totalmente desprovido de razão. Eu gostaria de conhecer o CR, bem como os planos e estratégias de ação.
-Primeiro, diga-nos, está com o pergaminho?
-Oh, sim! Não foi fácil pegar das mãos de Olan, ele é muito ciumento e zeloso de seu tesouro.
-Ótimo, pois o Romeu aqui recebeu pelo radiocom mais um trecho destes pergaminhos. Zeheler está neste momento analisando uma cópia do original que eu recebi via e-mail da bruxa. Nós teremos muito a discutir depois disso.
-Perfeito! Caso confirmem-se os dados que analisei até o momento, teremos grandes chances de acabar com esta ameaça à humanidade.
-Não gosto de ser muito pessimista, mas com os relatos que recebi de Maxwell e os fatos que eu tenho a partir das experiências de meu chefe, dr Batista, juntamente com as de meu amigo, Wanderley, eu temo que nossas chances são bem reduzidas.
-Sr Silveira, eu sei que sua experiência como policial neste país de valores invertidos é frustrante, mas creia-me quando digo: nenhum império dura para sempre!
-Se eu não tivesse conhecido a Rosângela, eu teria a tendência de persistir nesta hipótese pessimista. Eu tenho uma bruxa para me ensinar e orientar!
-Hahaha! Danado! Eu espero que ela consiga explicar como eu os entendo perfeitamente, na minha língua e como me compreendem, em meu péssimo inglês.
-Eu creio que ela poderá te explicar, caso isso não seja mais uma paródia do escritor lunático.
-Isto também é algo que ainda não assimilei. De que forma nós estamos vivenciando esta saga concomitantemente com a narrativa de um escritor convidado?
-Eu diria que isso é devido à péssima arte e pobre domínio das ferramentas da literatura deste escritor convidado.
-Hahaha! Eu acho que ele exagera da metalinguagem. Um paranóico da metonímia. Um mendigo da paráfrase. Ele bem que tenta ensejar uma paródia aos livros dos americanos evangélicos, mas ele mal consegue formar parágrafos coerentes!
-Eu tento imaginá-lo. Ele usaria nosso diálogo para introduzir uma crítica ao conjunto da obra destes celerados?
-Não, não, não. Fácil demais. Eu creio que o objetivo dele seja igual ao nosso: desmascarar o cristianismo, não os subprodutos deste.
Interrompo minha escuta clandestina de meus personagens para que se sintam mais à vontade, desfrutem da beleza da cidade e por fim cheguem ao QG do CR. Kraspov corre feito menino pelas escadas, dispensando o elevador para mostrar que ainda mantém a forma que tinha desde cadete da KGB. Emanoel e Silveira chegam 5 minutos depois, com os dois velhos cientistas dando-se as mãos na entrada do apartamento de Emanoel, enquanto aguardam a chegada do dr Batista para presidir a reunião do CR.
Enquanto isso, eu conduzo a atenção de meus diletos leitores invisíveis para uma van estacionada na esquina próxima do CR. Dentro dela, um destacamento do Exército do Cordeiro vigia e monitora as atividades do mesmo, aguardando a ordem final para executar o plano engendrado por Miranda e Uriel. O plano é simples: forjar um crime que denuncie a presença do CR e incrimine a um ou a todos os seus integrantes. Em contato contínuo com a base em São Paulo e com alguns policiais mercenários, pretendem invadir o CR usando como subterfúgio o ateísmo militante de nossos amigos, algo que por lei pode ser enquadrado como crime contra a liberdade religiosa ou crença. Nisso o cristianismo tem séculos de experiência: usar as leis para eliminar concorrentes ou contestadores e sempre aparecer como vítima de perseguição e intolerância. Consegue projetar em seus inimigos os defeitos que jamais confessaria possuir.
-Que bom poder falar com alguém como eu! Esses moleques não sabem como causa aflição ao meu raciocínio não ter com quem confrontar!
-Ora, ora, que bobagem! Nós não tínhamos miolos quando estávamos na idade deles. Mesmo agora, eu estou abismado do quanto eu ignorava!
-Oh, sim, sim! Você também está com dificuldades, eu poderei compartilhar das mesmas dúvidas e incertezas com você.
-Hehehe! Eles estão tão perdidos quanto nós. Que tal deixarmos esta estúpida barreira de idade de lado, sentarmo-nos todos para o chá que eu preparei, relaxar com uma música selecionada por minha neta e ouvirmos todos as mensagens dos pergaminhos? Eu sinto que teremos uma experiência indescritível.
Breve pausa para o suspense. Eu fecho aqui este trecho.

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