2 de mai de 2009

O terceiro pergaminho

Silveira estava para ligar seu note-book na rede para que todos os colaboradores e investigadores ao longo do globo terreno pudessem compartilhar do encontro de dois cientistas e da leitura do 3º trecho dos pergaminhos das memórias dos deuses quando a porta do apartamento de Emanoel cedeu à investida de um destacamento do 22º distrito policial, chefiado por um cabeça de bagre, um servidor público medíocre que sobrevive na selva burocrática do sistema adulando seus superiores imediatos e autoridades, um velho desafeto do dr Batista e dele, o dr Calabar.
-Mão na cabeça! mão na cabeça! Todo mundo parado!
-Que é isso, companheiro?
-Hehehe! Silveira! Eu te peguei de jeito, não? Nem vem com esse papo comunista, seu infiel! Eu fui muito bem assessorado, seus sofismas não terão efeito sobre mim, eu tenho o Senhor Jesus ao meu lado!
-Eu que o diga. Mas eu conheço o procedimento. Qual é a acusação?
-Quer em ordem alfabética ou gravidade? Formação de quadrilha, injúria, difamação, atentado contra a liberdade de crença e religião, ameaça à paz pública e mais o que eu puder inventar ou plantar em sua célula clandestina.
-Os seus orientadores, os seus patrões, avisaram que isto nos colocará frente a um júri e nos dará a oportunidade de demonstrar ao público o que eles tentam esconder?
-Como eu disse. Eu ainda posso inventar e plantar algo. Quem disse que vocês chegarão ao júri? Eu posso muito bem simular uma tentativa de fuga com uma baixa acidental dos indiciados.
-Eu acreditaria nisso, se ainda estivéssemos nos anos 70. Você não tem culhões para nos matar e esses guardinhas não terão coragem de nos apagar, sabendo que todos os outros distritos irão investigar e vingar nossas mortes.
-Nesse caso, porque se preocupa? Será que está com medo de morrer e ir pro Inferno? Basta se ajoelhar diante de mim e aceitar o Senhor Jesus e eu tentarei interceder por você diante de Deus.
-Ajoelhar diante de você e adorá-lo. Onde foi mesmo que eu li isto? Você vai mostrar todos os reinos e riquezas do mundo e oferecer-me como graça por aceitar o Usurpador? Ou vai me induzir a fazer algo que desafie as forças espirituais para te provar de que eu sou protegido pelos deuses?
-Boa tentativa, demônio! Eu tenho bastante tempo, eu irei entregá-los diretamente ao Mestre! Ele ficará muito satisfeito com a derrota final do Anticristo e seus agentes! Eu serei bem recompensado por lhe devolver os manuscritos sagrados.
-Por falar nisto, nosso convidado trouxe mais um trecho, que tal nós ouvirmos?
-Oh, não, demônio! Eu não permitirei que abra este pergaminho santo e o leia com suas palavras torpes e malditas. Rápido, peguem tudo!
Mas Kraspov quebrou o lacre do pergaminho e pôs-se a ler no original em esloveno antigo, tendo todos ouvido em bom português. A leitura colocou todos os captores sentados e inertes no chão, desesperados e assustados com tal manifestação inesperada. Dr Calabar e seus asseclas não compreendem como tal coisa pode acontecer, afinal receberam a sagração diretamente de Miranda e foram agraciados com os santos óleos diretamente de Uriel. Impotentes, tudo que lhes restava era ouvir as terríveis palavras da verdade, ainda que seu Mestre não o desejasse e os tivesse sob seu domínio.
"Ao Grande Abismo, cuja face e Nome não foi dado a saber. Vossa presença é a Criação onde o Um debruça-se sobre si mesmo. Aquele, o Inominável, em cujo ventre estende-se as Pradarias da Eternidade. Autor e consumador da lei máxima, a regra dos deuses é uma vez surgir e outra desaparecer, a regra básica de toda a existência. Os Primeiros foram e deixaram os Patriarcas para continuar a colonização desse Mundo. Os deuses são semeadores, devem orientar e educar, mas jamais interferir no caminhar destas crianças.
Dentre os Patriarcas, vem Iahvé usando do poder que a fé dos homens lhe dava e varreu em uma região os demais deuses, mantendo por essa tirania e ilusão seu domínio sobre muitos deuses e seus descendentes, dentro de uma região, por algumas gerações. Pela fé dos homens que liderava, Iahvé perpetua-se pela memória, desafiando a lei dos deuses, ousadamente negando sua essência e origem. Mas mesmo a fé humana não lhe permite adiar sua decadência, sua eternidade comprada pela fé e sacrifício de seus seguidores não o livra da senilidade e da esclerose. Usando das artes mágicas que sempre condenara em juventude, Iahvé derrama da sua essência e corta sua carne para juntar a carne divina com a humana, para ter um herdeiro que continue seu reinado de terror, eis o Cordeiro!
O segundo assentamento dos Patriarcas foi dos Elohim, descendentes de Enlil e Ninlil, se fixaram ao centro e a leste do Continente. A sucessão destes também teve disputa entre os irmãos tendo Iahvé superado as expectativas, ele venceu com o apoio de Marduk e El, seu irmão mais velho, mas estranhamente Iahvé não confirmou sua herança, desapareceu em meio aos humanos por mil anos deste mundo. O quinto assentamento a sudeste do Continente pertenceria aos Serafim, descendentes de Utu e Ishtar, mas os Elohim, liderados por Iahvé, avançaram e tomaram os criados, herdeiros, armas e riquezas trazidas pelos Primeiros que, para preservarem suas vidas e descendência, refugiaram-se com os Nefilim. O sexto assentamento pertencente aos Querubim, descendentes de Iskur e Ninarsag que deveria estar no centro do Continente, eles tiveram que aceitar sua escravização pelos Elohim e o reinado de Iahvé, formando toda uma descendência de servos e escravos que receberam o nome de anjos.
Em memória do Inominável, pela herança dos Primeiros e em honra aos Patriarcas que então formaram dois legados diferentes. Os Usurpadores, que são Baal e Iahvé, que vêem nos humanos não sua descendência igual e semelhante aos deuses, mas como gado para servir aos deuses que nasceram da linhagem dos Primeiros. Os Humanistas, que são Lúcifer e Satan, que vêem nos humanos a mesma capacidade e legitimidade, são estes os responsáveis pelo gerenciamento e condução da raça. Quando os Primeiros tiveram de deixar este mundo atrás de novas colônias para as novas migrações de deuses e garantir novos assentamentos aos seus descendentes, confiaram aos Humanistas para que esses mantivessem a memória das origens, bem como o projeto do destino dos Filhos dos Deuses.
Eis então, humanos, a minha súplica, para que a ouçam sem perguntar meu nome, pois entre vós existem muitos que se escandalizam, por causa da palavra do Usurpador. Como tudo que existe provém de uma origem ancestral, tal como o Um que ao se aniquilar nos deu a existência presente necessariamente tal existência retornará ao Abismo de Seu ventre, num perpétuo ciclo de recriação. Anterior ao Um, o Nada é, o mesmo é o Um quando se debruça sobre si mesmo e percebe que existe, o que vem depois é duplo, manifestação do Um. Assim, melhor que muitos em vosso meio, eu posso atestar as origens de todos os Patriarcas e dar-vos a prova de meu sangue, que é igual ao teu e do Usurpador Iahvé, aquele que procura dissimular e esconder suas origens dos humanos para arrebanhá-los.
Eu conheço a verdadeira origem de Iahvé e seu recente avatar, Yheshua, que ascendeu ao meio dos deuses pela crença dos humanos. Na ocasião em que os Primeiros tiveram que partir e que os Serafim tiveram que se refugiar, os deuses antigos conferiram a mim a vigilância sobre Iahvé, para poupar a raça humana de piores conseqüências. Eu vos dou, em nome dos Primeiros e honra dos Patriarcas, a verdadeira face do Cordeiro!
Dez são os irmãos que formam a tribo dos Elohim: El, Elehim, Iah, Eliah, Liah, Iahvé, Eloheh, Iahhim, Eliahhim, Liahhim. A estes irmãos foi reservada a parte leste do Continente, na partilha feita pelos Primeiros para cada um de seus descendentes. Sendo El o primogênito, a ele foi confiado o comando da tribo, bem como a posse de suas irmãs para dar continuidade à descendência. Elehim cuidou das plantações, Eloheh das construções e Eliahhim das fronteiras. Iahvé não encontrava atividade para ele, apesar de seus irmãos e irmãs o tratarem com todo amor, carinho e respeito, ele percebia que era diferente de seus irmãos. Iahvé era uma divindade pequena, esbranquiçada, calva, troncuda, com deficiência visual e corpo tísico, bem diferente da exuberante força vital que seus irmãos demonstravam e isso o deixou invejoso, rancoroso e com inúmeros complexos. A solução para que Iahvé pudesse encarar sua existência e conviver com seus irmãos foi a de usar as vestes dos seus pais, corrigir sua postura e aparência mediante o uso das armaduras dos deuses. Ele gostou tanto deste papel de grande general que cobiçou o assentamento destinado aos Serafim, foi quando ele desenvolveu a habilidade que viria a dobrar os demais deuses: a oratória.
O pobre El tinha força e determinação mas não possuía defesas contra as palavras doces e convincentes de Iahvé, que o levou a acreditar num pretenso direito de primogenitura e mediante isso exigir mais terrenos. Encontrou a mesma cobiça e sentimento de mérito em outra entidade, Marduk o filho de Anu e Antu, com tais aliados, os Serafim não conseguiram se fixar e nem os querubins puderam descansar. Evidentemente, Iahvé tratou de eliminar o próprio irmão em campos de batalha, com uma ajuda de Marduk que em troca pediu a ajuda de sua tribo para consolidar sua descendência apoiando Baal, seu filho.
Iahvé conseguiu tudo o que ele queria, tomou a coroa de El, acossou os outros irmãos mediante o apoio de Marduk e forçou suas irmãs a suprimir toda a gens de El, matando seus filhos e as obrigando a lhe dar uma prole. Desta descendência nasceu apenas pesadelos, natimortos e gigantes cegos, a semente de Iahvé tornou-se maldita e não demorou a secar. Apesar de todo o poder e riqueza que adquirira a preço do sangue da própria família, Iahvé não somente ficou infértil mas também impotente, o levando a aprofundar-se mais em suas fantasias e delírios de grandeza. Foi quando, inexplicavelmente, sorrateiramente, Iahvé saiu do meio dos deuses e tentou misturar-se entre os humanos para, por meio da crença deles, conseguir maior tempo de existência, ele tinha planos maiores para a humanidade e para todos os outros deuses.
Por mil anos deste mundo segui Iahvé em seus planos perversos entre os humanos para conquistar a simpatia e confiança destes, para com sua lábia convencê-los de que era o Senhor e Deus único. Apesar dos esforços dos outros deuses, seu plano foi bem sucedido graças à associação que fez com um povo tão cheio de complexos quanto ele. Foi quando Marduk e seu filho Baal sentiram o sabor amargo de ter confiado neste embusteiro, Iahvé, que estando reforçado da crença humana pôde banir o velho Marduk e seu filho Baal do trono da Terra, seguindo em frente para a conquista de todos os outros territórios e banimento dos outros deuses, graças ao aumento que tinha em número de crentes, por suas vitórias conseguidas, exatamente pelo apoio que estes lhe davam.
Mas mesmo com todo o poder e glória que Iahvé resplandecia por obra da crença, a velhice chegava, era imperioso que entrasse em algum vetor carnal para tapear a senilidade e decadência, foi neste momento que ele usou de suas habilidades e conhecimentos das antigas tradições para habitar num pobre humano em vias de nascer. A conseqüência disso foi que Iahvé pode reencarnar e ascender mais uma vez para o meio dos deuses, recomposto e revigorado em força e crença humana pelo nome que ele se apresentou quando em meio aos humanos: Yheshua. Para o horror e temor dos deuses, seguiu-se a mais encardida e tenebrosa guerra contra os deuses antigos, por mil anos o Cordeiro reinaria com a mão de ferro implacável e insaciável por sangue inocente, massacre executado pelos fanáticos da nova bandeira de Iahvé: o cristianismo.
Eis então, humanos, a chance que precisavam, pois os mil anos que Iahvé conseguiu para estender sua existência chegará ao seu final, ele mais que antes procurará excitar os humanos em seu nome para uma nova guerra santa contra os falsos deuses e com isso conseguir mais mil anos de reinado sobre este mundo. Agora que sabem da triste verdade, verão quem é realmente o enganador, o mentiroso, o matador cruel, o ladrão sagaz, o vampiro de almas, eis o Cordeiro!Homens, ouçam sempre a voz de seus corações, nesta voz está a vontade do Um. Não alimentem esse vampiro do Cordeiro, pois vocês permanecerão eternamente presos nesta gaiola dourada preparada por ele. Não procurem pelos sacerdotes, nem engrossem a associação dos dementes que lotam os templos, nenhum homem pode conduzir outro homem nos caminhos da espiritualidade e o templo do Um está em seus corações.
Malditos sejam os acólitos do sofrimento por terem erguido esse espantalho, malditos sejam os cambistas da santidade por elegerem um mendigo como zelador do tesouro, malditos sejam os advogados da abominação por privar os homens do prazer, malditos sejam os soldados da moral por deturpar a natureza humana, malditos sejam os profetas do advento por roubarem o reino dos herdeiros por direito e mil vezes mais maldito seja essa criatura que derramou seu sangue na Terra, abrindo o apetite dos homens por mais sangue!"

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