4 de mai de 2009

Ossos do ofício

Coisas do ofício. Não sou de falar muito, sou bom ouvinte, mas deixei de me torturar com as opiniões de terceiros. No momento certo, Lilith leva a mim e o louco poeta para o Ponto Zero a fim de ter um registro aos diletos leitores presentes do que ocorrerá.
- Vocês dois de novo? Não tinha coisa melhor?
- Infelizmente não, general.
- Olha, eu tenho muita consideração por você e por sua família. Se não fossem os Nefilim, minha família e parentes não sobreviveriam, mas eu deixei bem claro que não desejo honrarias ou autoridade. Tudo o que eu quero é acertar com o Carniceiro.
O frenesi aumenta, a fortaleza pousa a 10 metros do Ponto Zero, na direção norte. Ao abrir o portão principal, saem primeiro os 11 arcanjos da guarda pessoal de Cristo. Satan os olha com pena e desprezo, enquanto os 11 se seguravam, apostavam e decidiam quem ia lutar primeiro. Evidentemente, o Usurpador desceu de sua fortaleza com toda a pompa e espalhafato cênico de um artista de rock: luzes, fumaça, fogo, coro, torcida organizada. Peraí! Isso é exatamente o que ocorre no show-culto da estelionatária Bispa Vânia (aham, um pseudônimo para evitar processos). Para delírio dos muitos evangélicos que estavam assistindo, ao vivo ou pela televisão, Cristo estava radiante, alto, forte, confiante, envolto por um manto branco e uma armadura dourada. Sentindo a raiva de Satan, foi o primeiro a falar.
- Eis-me aqui, minhas ovelhas, como eu vos havia prometido, para varrer toda a maldade deste mundo, julgar aos vivos e aos mortos, mas principalmente para derrotar e aprisionar a Grande Serpente, o Príncipe deste Mundo. Oh, pobre e vil criatura, está pronta para a fúria do Senhor?
- Há! Você pode iludir a estes todos com suas doces palavras e este espetáculo de ilusionismo. Mas eu te conheço, Yheshua, você não é outro que não o mesmo velho deus Iahvé. Aquele que conjurou com muitos e promoveu uma chacina entre os deuses. O mesmo que, traiçoeiramente, após a conquista sangrenta, com sua lábia, promoveu a disputa entre sua própria família, unicamente para apunhalá-los tranqüilamente, pelas costas. Aquele que, ainda com as mãos empapadas com sangue inocente e a armadura furtada de Anu, subiu até a Assembléia dos deuses e os confundiu com suas palavras e conquistas desonrosas. Aquele que, não satisfeito com o crime e a loucura que cometeu contra seus semelhantes, buscou a perdição da semente que os deuses aqui neste mundo deixaram. Aquele que, pelo medo e coação, obrigou aos deuses a outorga da autoridade e poder que hoje ostenta. Aquele que praticou o pior crime e abominação, encarnou em um humano semiciente para afundar ainda mais a humanidade no lodo da crendice e da superstição. Aquele que usou e abusou dessa força e da ignorância humana para prolongar seus dias e, pelo nome da nova religião, dominar aos deuses e aos humanos.
- Oh, vede, vede! Como ele me acusa! O Caluniador, o Adversário, o Perverso e o Cruel! Vede, humanos, como invejoso ele é! Ele nunca os aceitou, sempre os odiou, por vós terem maior graça diante de Deus, o Senhor. Ele, o Enganador, que usa de suas artimanhas e inteligência para distorcer a Luz! Ele, o pai do pecado e da morte, o responsável pelo sofrimento deste mundo e não se conforma pelo meu sacrifício para a libertação de todos quanto me procurarem. Venham agora, minhas ovelhas, que eu as aliviarei da opressão do Príncipe deste Mundo. Venham, sem demora, pois é chegada a hora do Filho recuperar o Trono do Maligno.
- Pois bem! Eu estou bem na sua frente, desarmado e desprotegido. Por que não mostra o grande covarde que é e tenta acabar comigo?
Não cabe a ti, Satan, determinar ao Filho do Senhor o que fazer, mas a ele ordenar sua reverencia e reconhecimento ou aceitar o peso da justiça vinda do Altíssimo. Ainda resiste e rebela-se? Os 12 Tronos do Pai cuidarão de ti.
- 12? Vejo apenas 11.
- O que tens com Uriel? Eu sei onde ele está e o que faz. Em nome do Senhor, ataquem Baruel, Daphiel, Gabriel, Jeriel, Miguel, Nabiel, Omiel, Rafael, Seraphiel, Thaumael e Veniel!
Com tremenda dor no coração, Veniel segue bem atrás a formação de ataque dos arcanjos de Cristo. Normalmente ela seria a primeira a quebrar a formação, unicamente para ter a satisfação de dar o primeiro golpe no adversário. Ela havia treinado esta formação e esta estratégia diversas vezes e, nas primeiras guerras dos deuses, isso funcionara divinamente. O alvo, o exercito de resistência, não prestava atenção a ela, pelo fato de ser mulher e a menor do grupo. Até o momento em que ela rompia a formação e atingia as falanges pelo lado, com toda sua fúria e poder, com conseqüências amargas ao alvo. Desfeita a defesa, tudo que seus colegas precisavam fazer era acabar de terminar a chacina. A memória do campo de batalha com milhares de restos de deuses e entidades espalhados por uma imensidão costumava ser uma recordação cheia de orgulho e honra. Agora, tudo que Veniel queria é ter a ajuda e proteção de Samael. Então ela espera, protela, adia sua ação fatal ao máximo. Mas o golpe é dado.

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