3 de mai de 2009

Primeiro diálogo

Diálogos esparsos de dois personagens perdidos nessa estória absurda.
-Ah, você chegou.
-Eles estão esperando uma declaração sua.
-Nem vem! Esse negócio de falar ao povo pode ser distorcido. Vocês não tiveram iluminados, profetas e messias o suficiente? Esse não é meu propósito.
-Bom, pode começar por aí. Todo mundo quer saber quais são seus propósitos.
-Basicamente? Honrar o nome de minha casa e limpar o nome de minha família.
-E nós, como ficamos?
-Vocês vão se beneficiar indiretamente. Isto é, se resolverem tomar os rumos de seus destinos.
-Então o boato que você veio para tomar o lugar do rei é falso?
-Há! Eu conheço os dois lados. Os que me difamam, por me considerarem adversário do rei e os que acham que me elogiam, por me considerarem o verdadeiro príncipe.
-Esse é outro ponto que precisa ser esclarecido. Qual seu posto ou hierarquia?
-Isso é confusão que existe entre vocês. Estruturaram suas sociedades conforme autoridades, funções e cargos preestabelecidos. Vocês estão em eterno conflito e confusão devido a este pensamento linear.
-Talvez seja necessário então esclarecer como funciona a realidade mais ampla.
-Eu tentei, como você, acordar as pessoas dessas ilusões e fantasias. Eu estimulei e patrocinei na medida do possível as ciências. Eu pensei que haveria algum progresso. Para minha decepção e frustração, o Humanismo acabou surtindo certos efeitos colaterais terríveis.
-Tais como?
-Bom, você deve ter percebido. Existe essa moda evangélica agora. No século passado era o marxismo. Estão tentando transformar as antigas tradições na nova panacéia aos problemas humanos. Não haverá solução, enquanto não houver uma mudança no cerne de cada pessoa.
-Então, nós devemos mudar nossos hábitos. Isso tem sido feito por muitos motivos, ideais e doutrinas. Não haverá alguma que você possa expor ao mundo?
-Não, definitivamente, não. Aqueles que me elegem como figura de seus sonhos e pretensões, estão bem longe de me compreender ou de me ajudar em meus projetos.
-Não há um sequer? Mas e quanto aos seus detratores que afirmam que este mundo é dominado por organizações secretas a seu serviço?
-Dupla comédia! Nunca existiram tais organizações mundiais, nem sou o príncipe. Os que inventam estas estórias as fazem a partir das lembranças das perseguições sofridas nos tempos do Império Romano. Quanto aos que orgulhosamente usam e abusam de meu nome, nunca os conheci, nem tenho contrato com qualquer um destes. Como disse, procuram para realizarem sonhos e pretensões deles, não as minhas.
-Então por que permite que eles continuem?
-Há de considerar que eu estive extremamente ocupado. O Usurpador também. As pessoas cometeram crimes em múltiplos níveis, em nome de algo que sequer conhecem. Isso é triste, é o que pretendo mudar.
-De que jeito? Desmascarando o Usurpador?
-Isso é algo que eu tenho que resolver com ele. Não o faço pelas pessoas. Imagine minha situação: chegando após longa viagem, deparando com as tendas, os acampamentos, milhares de amigos, parentes e familiares, sendo atacados, saqueados e violentados por uma turba covarde, inocentes desarmados pegos de surpresa pela fúria de uma milícia pesadamente armada.
-Foi difícil achar o Usurpador?
-Essa é a parte que eu detesto. Naquele momento, eu estava ocupado, tentando salvar o máximo que podia, reconstruir nosso lar entre os Nefilim. Depois, eu achei que encontraria o Carniceiro na assembléia dos deuses, mas mesmo ali havia grande confusão e divisão, alguns apoiavam, outros condenavam. Demorou a conseguir acertar essa diferença. Então eu fiquei sabendo que ele havia rumado de volta aos acampamentos, para tentar se aproximar das pessoas como se ele fosse o rei. Ao chegar nas colônias de gente, havia uma guerra e tanto, entre os seguidores do Usurpador e os de Baal. Outra vez, eu acabei me envolvendo em uma guerra que não era de minha responsabilidade. Quando retornei para entre os deuses, o safado escapara novamente, deixando o rastro de destruição entre seus pares. Muitos deuses sucumbiram e acabaram se tornando servos do Usurpador. Eu não tive outra escolha senão levar os que ainda mantinham a sanidade para outro ponto. Isso também demora pacas. Quando procurei pelo desgraçado, eu fiquei sabendo que ele conseguira com a assembléia dos deuses marionetes a autorização para encarnar em um humano. Pode imaginar as conseqüências e a gravidade de tal ato de magia?
-Eu suponho. Esse foi o inicio, a semente da maior ameaça aos humanos: o cristianismo.
-Exato. Ao chegar em meio ao povoado que ele elegera para executar esta manobra execrável, eu deparei com o ato consumado. Nada que fosse muito difícil para o Usurpador, acabar com a vida material daquele infeliz que foi escolhido como vaso.

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