3 de mai de 2009

Romantismo ideológico

Silveira tamborila impaciente sob a superfície do linóleo do balcão enquanto espera que seu chefe, o dr Batista, acabe de interrogar aos traficantes presos que sobreviveram para que ele prossiga com suas diligências. Ao seu lado, o escritor convidado observa a todos em seu silêncio estratégico e passa a limpo seus relatórios sobre as ações ocorridas na semana com o CR, incluindo a tentativa de emboscada ao grupo teatral de Wanderley, onde ele participara na personagem do Homem.
Como bom brasileiro, Silveira não entende a sisudez e economia de conversa do escritor ou sua pose de intelectual. Na tela de televisão colocada na recepção do distrito policial passam as notícias do Cidade Alerta da Record Rio, sendo a melhor parte quando aparece o segmento paulista sob a ancoragem de Marcelo Resende, repórter que conhece o meio policial como poucos, ainda que exagere ao expor suas teorias ou opiniões.
Silveira possui grande admiração e respeito pelo trabalho dos repórteres, em especial os policiais. Ele ri das memórias que afloram em sua época como cadete, durante as greves e manifestações estudantis, ele esteve tanto na pele de um soldado romano quanto no de um cristo, mas foi nesta época que ele conheceu Sandra, dando aos da imprensa marrom várias matérias e escândalos. Ele não tem remorso ou ressentimento, não guarda mágoa nem ofensa, aquilo o fez crescer profissional e pessoalmente. Os arquivos pessoais que ele guardou até hoje com notícias que o envolviam dariam um belo dossiê, testemunhando a constante incompetência de nossos governantes, a inconstante e dinâmica ideologia romântica dos brasileiros, a omissão e negligência das elites, enfim, essas mazelas que continuam a nos amofinar, sem solução, enquanto seguimos sustentando um sistema que reflete esse nosso eterno estado de torpor e inconsciência comunitária.
Ele tenta falar com Rosângela pelo radiocom, mas consegue apenas sinal de ocupado. Ele tenta contato com Zeheler, mas recebe uma mensagem automática pedindo para ligar mais tarde. Ele pensa em Emanoel, mas provavelmente ele e Sandra devem estar em atividades que os impedem de retornar o contato. Wanderley provavelmente estaria fora de área, indo a outra cidade com seu espetáculo, sobretudo depois do perigo que correu com a ação do Exército do Cordeiro. Existem algumas mensagens de Maxwell e Bacon, mas no momento ele gostaria de um contato mais humano e próximo. Eu sinto tal carência e peço que ele não tente furar meu bloqueio contra o contato social ou inconvenientemente íntimo.
-Então, você é bruxo, satanista, ateu e heterosexólatra?
-Hã? Quê? Ah, sim. Um pouco de metalinguagem. Olha, eu sou tão normal quanto você, eu apenas quero chegar a uma conclusão por meio daquilo que é convincente. Isto são apenas rótulos, são roupas psicológicas que vestimos conforme a situação.
-E o que você achou do programa que juntou vários religiosos e um ateu?
-Fiquei com pena da pobre criança, em seu ateísmo compulsivo. Os demais conseguiram vender seu peixe.
-Você não acha muito impróprio defender o prazer carnal como caminho místico? Aonde espera chegar com seus livros que circulam apenas no circuito literário marginal?
-O que quer? Que eu justifique minhas opiniões contra essa moral rançosa? Que eu venha a demonstrar o óbvio que as virtudes são uma forma hipócrita de prazer diferenciado? Que eu volte a repisar no postulado de que esse movimento contra a pedofilia é a neurose da moda? Eu vi o programa e desanimado percebo necessariamente que o diálogo não necessariamente conduz a um consenso. Aqueles que se aferram em convicções pobres e limitadas, nisto incluo a ciência e o ateísmo, jamais admitirão as falhas em seus sistemas de valores, doutrinas e dogmas.
-Não, eu queria saber porque continua a escrever se sabe que poucos irão ler e mesmo os que lerem não irão reavaliar suas convicções.
-Eu cansei de me justificar e de usar este recurso metalingüístico, citando leitores fantasmas e brincando com a impossibilidade de encontrar espaço neste comércio de palavras. Esta é minha sina, eu escreverei até o Cosmo parar de existir.
-Quantos livros mesmo? Eu sei que escreve agora e, se não me engano, antes escreveu um que demorou 10 anos. O que aconteceu?
-Hetera demorou 10 anos porque antes eu nem possuía uma máquina de escrever mecânica, ter um computador era um sonho. Hetera foi mais um esporro, uma catarse de várias idéias que surgiram feito lava, esta obra foi fundamental para que eu conseguisse suportar minhas idiossincrasias. Hetera foi o exorcismo e a cura. A obra atual, Ataraxia, está prosseguindo com mais fluência e menos erros. Quem sabe, com mais algumas tentativas, eu consiga acertar a receita e lançar um livro mais apetecível ao público?
-E Ataraxia é um livro mais sério? Mais real?
-Real? Num país feito o Brasil? Nem livros documentais conseguem isso. Nós somos exatamente como Glauber falou: Terra em Transe. Sobre isto, eu estou igualmente cansado de insistir: nós, brasileiros, somos os autores e responsáveis pela atual conjuntura.
-Eu queria saber com vai acabar. Tem um herói? Tem final feliz ou romântico?
-Aiaiaiai, meu São Causado! Como é que você, personagem meu, quer saber como finda esta estória? Não, não, não! Nenhuma vidente conseguiria arrematar esta saga. Eu detesto romantismo, heróis ou finais evidentes demais. Eu não sou roteirista de novela!

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