3 de mai de 2009

Satan

Hoje eu vou começar por um fato engraçado: minha irmã tentou chantagear emocionalmente, com a eventual morte de meu pai. Algo muito peculiar, considerando que as pessoas falam tanto no mundo do além, mas ainda oferecem certa resistência quando alguém próximo, quando não as mesmas, se vêem no limiar final.
Não fui eu que fiz as regras desta vida, eu apenas as sigo. Eu aprendi que temos que saber viver, as conseqüências de nossa indigência frente à vida são unicamente de responsabilidade do diletante. Nenhum de nós escolheu encarnar, nem a família na qual nasceu, nem os pais podem devolver um rebento que não lhes agrade. Nenhum casal é forçado a ter filhos, nem os filhos têm dever ou dívida alguma com seus pais. Ter filhos não pode nem deve ser desculpa aos pais de descuidarem de seus destinos, da mesma forma que os filhos não podem justificar seus atos nesta vida pelas falhas paternas.
Quando eu estava preso a estranhos valores de honra e gratidão, eu era útil e abusado por familiares oportunistas. Agora, que me libertei, eu sou considerado egoísta, mesquinho, conformado! Quer dizer, os 6 anos que passei fome mesmo trabalhando, sem ajuda nem apoio de ninguém era certo. (!?)
Bom, justiça é algo que nunca terei, mas meu pai que siga com o destino que escolheu, com a responsabilidade e conseqüência advindo deste, não serei eu a dar exemplo de comportamento e conduta, a quem quer que seja, quem ainda se coloca a serviço destes estranhos conceitos de honra e gratidão que carregue a carga. Eu não sou Cristo, eu rejeito qualquer cruz.
Kelvin não concorda muito com minha fantasia, ainda que sinta algum fundo de verdade. De todos os personagens que viemos acompanhando, ele tem mais motivos que eu de desconfiar desse mito chamado família. Ele era como um estranho aos seus pais, tanto na época da separação quanto na época de conversão. Com uma ajuda dos deuses, ele foi posto fora deste círculo vicioso, conheceu e perdeu Platus, foi treinado por Rosângela e recebeu a ajuda de Katerine. Como eu, conseguiu reconhecer que a humanidade tem construído, até os dias de hoje, muitos totens e agora não consegue mais ver o horizonte, está presa em suas superstições e mitos.
Um que está em moda é a inocência e ingenuidade das crianças, suscitando combustível para a neurose contra a pedofilia, o que me lembra de mais um totem que deve ser derrubado: a industria da pornografia patrocina o estupro e as muitas formas de violência sexual. Ora, tal estado de imaturidade sexual é conseqüência da canga religiosa que os sacerdotes nos impõe, sem falar no estado de barbárie cultural que nossos governantes delegam ao nosso povo. Quando eu defendo o culto a carne, não pretendo avivar a selvageria, mas de derrubar o parasitismo sacerdotal e a incompetência estatal.
Katerine ri de mim, com razão. Eu sou homem, falarei tudo que for de absurdo filosófico para tentar convencer uma mulher a ir para a cama. Ela lembra uma lenda curiosa da Irlanda: o tributo em lagar feito aos duendes. Alguns casais, desejando filhos perfeitos e fortes, em noites de lua crescente ofereciam um lagar de leite aos duendes. Um copo de leite. Com isso, o casal podia fornicar a vontade e esperar um filho, confortavelmente. Eu daria um tonel de leite aos duendes, se isto tirasse do mundo o Menino Jesus. Katerine ri, ela queria com esta estória entrar neste insólito campo que é a fantasia humana. Os únicos que se beneficiaram com os copos de leite na antiga Irlanda foram os gatos, os duendes sempre preferiram bebidas mais destiladas.
Os anjos não são diferentes. A maioria age sem consciência de sua ação ou propósito, todos estão presos a estas prisões chamadas honra e gratidão. Eles não possuem um corpo, no sentido anatômico compreendido pelo homem, a forma assumida é conseqüência da mesma lei evolutiva que funciona em nosso mundo, mas de materiais diferentes. A aparente vestimenta e asas são extensões da pessoa que cada anjo é, como a cor e luminescência. Uma imagem ao estilo de Magritte: a asa parece uma asa, tem forma de asa, mas não é uma asa. Nós, humanos, sempre nos enganamos e nos fascinamos com os reflexos da luz.
Até ai, nada de mais, basta estarmos prontos a mudar de perspectiva e admitir que nossa visão é sempre parcial, o problema é quando tomamos as fantasias como realidade e tentamos colocar todo um Cosmo dentro deste gabarito. Não falo exclusivamente do gabarito religioso, mas também do cientifico. Céticos deslumbrados, ateus compulsivos e membros do Instituto Dexter estejam avisados.
Aqui, por cima destas colinas de Durnham, eu compartilho a visão do vale de Beregner onde alguns bruxos se reúnem para celebrar o despertar dos deuses. Bem ao centro do circulo formado por 7 pedras, 4 marcam os cantos do mundo e tudo circunda a ara central, uma mesa de pedra com inscrições em runas de Yugot. Os bruxos convidados entoam cânticos escondidos e proibidos por séculos, uma cantiga carregada das memórias dos antepassados deste povo, mas que são igualmente fortes para este brazuca. A entonação, as rimas, as vibrações, pertencem àquilo que Lacan descreve como inconsciente coletivo, algo que é preservado não pela memória nem pela tradição, mas pelos gens. Tudo transmitido por esta insólita ligação entre os primeiros antropóides e os deuses, o que tornou possível o aparecimento da humanidade, tal como conhecemos.
Compreender o cérebro enquanto sistema mecânico é possível, mas sua potencialidade escapa da explicação simplista dos evolucionistas. Hoje é normal ouvir no meio cientifico esta surpresa e constatação de que há algo além do simples mecanismo neuro-sináptico. Não custa muito, ainda vamos admitir e provar a existência de outras dimensões e, conseqüentemente, das entidades espirituais e dos deuses. Katerine interrompe a minha patinação na maionese, levantando alegre e sentencia:
-Ele chegou!
Os campos ficam mais verdes, a luz do ocaso mais avermelhada, os animais se juntam ao cantar dos bruxos, estrelas desafiam os limites do firmamento e se mostram como faces. As nuvens se afastam, os rios correm mais lentos, os ventos sossegam. Meu coração encontra uma satisfação e um contentamento que são indescritíveis, meu corpo tem formigamentos e sente o calor do aconchego. Houve um silencio e todos sorriem. Tremei, Usurpador, pois Satan chegou.

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