4 de mai de 2009

Shaitan

Parece que eu fui possuído pelo espírito de um escritor de novelas. Drama barato, roteiro forçado e desenvolvimento previsível. Eu confesso que estou enrolando. Mas vamos ao palco.
- Meu filho? Shaitan?
- Cale-se. Como ousa? Você não pode ser meu pai.
- Como pode falar isso? O que esse canalha fez com você?
- Eu te ouvi. Diz não procurar honrarias ou glorias, mas então porque ainda busca vingança? Diz não ter nenhum vinculo com os demais, então quem o nomeou como justiceiro? O que tem buscado? Uma satisfação, um silêncio, a tranqüilidade da consciência. Nós fomos dizimados, mas nós fomos na frente. Como pôde deixar eu e mamãe virmos a este mundo desconhecido, ameaçador e inexplorado?
- Eu nunca vou poder reparar isso. Naquela época, eu cumpria ordens, eu confiei nos deuses mais velhos e, como muitos, eu tinha por incumbência ajudar e preparar a partida e a viagem dos primeiros colonos. E cá nós estamos, esta é a recompensa por confiar em poucos o destino de muitos. Os deuses mais antigos estão rendidos e deslumbrados com a falsa autoridade e poder deste tirano. Eu não acredito que a derrota deste facínora poderá alterar o atual estado das coisas, para isso eu teria que interferir nas consciências alheias e isso não é admissível, eu me tornaria em algo igual ou pior do que o Usurpador.
- Hahaha! Você continua com o mesmo discurso. Até quando vai continuar se enganando e se justificando para os outros com estas falsas memórias e conversa mole?
- Você! Você, maldito! Você é o maior responsável!
- Hohoho! Que medo! O grande, forte e corajoso Satan não sabe como resolver um dilema tão simples.
- Cale-se também. Mais que outros, eu o conheço, Yheshua. Eu fui o seu Espirito Santo e o seu Diabo, eu fui seu arco e flecha, enviando suas bênçãos e maldições por todo este mundo, eu era o verdadeiro autor de seus milagres e visões. Eu te construi o Paraíso, a gaiola dourada concebida para preservar seu idílio e estocar as almas crentes que o manteria vivo. Também construi o Inferno cristão, a masmorra onde você podia torturar seus prisioneiros e aterrorizar os viventes. Eu recebi toda a carga dos pecados e da maldade humana, unicamente para que brilhasse em sua aura de pureza e santidade. Você se posta tranqüila e comodamente em seu trono, mas eu fiz seu alicerce. Até quando esta coroa se sustentaria sobre o pecado que tanto condena, eu não sei, mas é certo que este ouro durará tanto quanto a podridão que este poder produz e descarta.
- Pobre Shaitan. Meu Espirito Santo! Não é muito tarde para mostrar remorso, vergonha ou arrependimento? Não é momento para crises de identidade. Acabe logo com isso.
- Certamente, meu Senhor.
O relógio marca meio dia, mas a luminosidade está mais para um crepúsculo, sombrio e avermelhado. Shaitan reúne em seus ombros toda dor, sofrimento, mágoa, ressentimento e ódio que tantas almas humanas penaram por causa ou devido à existência do cristianismo ao longo de tantos séculos. Espectros de guerras, de cizânias entre povos, gritos, lagrimas e sangue inocente ocupam todo o cenário até o horizonte. Este é o lado de Cristo que tanto os pastores evangélicos tentam esconder, este é o outro reflexo da luz, do Paraíso prometido pelo Usurpador, é o Inferno cristão, a terrível e escura psicopatia derivada da personalidade mais profunda e escondida de Cristo. Shaitan não evocou este banshee para impressionar. Satan estava pasmo diante de tanto poder. Shaitan então definiu seu alvo:
- Meu pai, eu te amo. Que a maldade deste mundo recaia sobre aquele que mais a evocou e patrocinou.
- Não! Shaitan, não!
- Adeus, pai. Sua semente será apagada.
Um brilho absorve todo este mundo e reluz com mais intensidade que todas as estrelas desta galáxia, uma explosão surda e muda. Algo parece ser movido, apagado, total obliteração.

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