2 de mai de 2009

Teatro

Ato 1, cena 1. Ao fundo um painel com a figura do Gólgota em silhueta e no palco apenas a névoa seca. Aparece Cristo recém-ressuscitado, indo em direção ao Paraíso, na direção esquerda-direita. Ele veste uma bata alva, com bordas douradas e respingada de sangue, rosto vitorioso e sorriso de satisfação. O som ambiente é um hino evangélico, repetitivo, enjoativo. Do lado oposto, em direção contrária, surge o Homem em um belo terno, sapatos alemães e portando uma curiosa bengala, uma vez que ele não manca nem possui deficiência, é um mero aparato teatral para seu personagem.
-Olá, Santa, como vai?
-Ih, nem vem, o Rabudo aqui é você.
-Eu não vou repetir nosso diálogo no deserto de Goreb. Então não diga que não gostou de ser bem sucedido em seu plano de conduzir os humanos para seu martírio.
-Ah, bruto invejoso, você nunca conhecerá meus dignos propósitos.
-Eu bem os vi. Você sempre gostou de receber atenção, desde pequeno. No seu espetáculo patético, transformou a humilhação em glorificação e um homicídio em santo sacrifício. Mas bem que você podia ter disfarçado sua excitação!
-Eu os amava, como Senhor! Você nunca entendera o que é amar!
-Ah, sim, o amor. Essa palavra humana tão propicia à sua fantasia, ideal para escamotear o seu desvio sexual. Não negue! Eu senti seu desejo, entre aqueles homens musculosos em seus corpetes de couro.
-Oh, perverso, pare! Você está, como sempre, distorcendo por inveja minha missão de resgatar os homens. Você foi derrotado, admita!
-Eu, derrotado? O projeto é seu, o fiasco é seu. Você convenceu os homens com seu ar contrito, sua aparente bondade, sua falsa misericórdia, seus truques baratos e suas palavras doces. Mas eu escutei suas suplicas: me bate, me espanca, me sangra, me crucifica!
-Pouco me importa os seus sofismas. Eu conquistei o coração dos homens, que irão me adorar e louvar eternamente.
-Você continua inconseqüente. Esta sua trapaça causa danos à existência de todos os deuses.
-Não há outro senão Eu, o Senhor! (o Homem dá um tapa) Ai!
-Eu avisei que não ia repetir nosso diálogo no deserto. Eu te avisei, antes que você fugisse que, se insistisse nessa baboseira, te dava um tapa.
-(fungando) Seu bruto! Violento, insensível! Você, mais que os outros, sempre me odiou! Ainda bem que eu entreguei aos homens um instrumento para guardarem a minha palavra, a Verdade! (o Homem dá um chute) Ai!
-Será que vou ter que te dar uma lição de novo? Nos sempre demos a você o tratamento de irmão! Mas o que fez? Quis manipular nossa atenção, quis a monopolização de nossas ocupações! E o que a boneca mimada fez quando não conseguiu o que queria? Associou-se a outro deus oportunista, com a lábia dobrou a vontade de El, usou a armadura que surrupiou de Anu, invadiu, saqueou, pilhou e escravizou seus outros irmãos e parentes! A sua palavra trouxe mais confusão, tumulto e discórdia entre os homens, causando mais danos dos que você alegava a mim.
-Pelo menos eu ergui a mão, coloquei ordem na Casa dos Deuses! Não podia continuar aquela sem-vergonhice, aquela fornicação entre parentes e a infame mistura da nossa linhagem pura com criados e símios! (o Homem ergue a bengala) Não! Chega! Não me bate!
-Pois eu vou agora mesmo no mundo dos homens consertar esta lambança que você fez e depois te pego.
-Há! Você? Aquele que apostou que os homens eram dignos de serem nossos herdeiros? Acho que eu provei o quanto eles são suscetíveis, fáceis de se adestrar. (o Homem enfia a extremidade da bengala no rabo de Cristo) A-a-a-aiii! Que gostoso!
-Você sempre quis isto. Ainda confio nos homens. Eu estarei entre eles e estimularei a natureza divina deles. Os homens perceberão, aprenderão e crescerão. A lei de não interferência será mantida.
-Hohohoho. Depois eu sou a boneca.
-Cretino. Eu tenho outros métodos. Eu me manifestarei pelas mulheres que são o veiculo da evolução.
-Huhuhuhu. Boa sorte. Você viu do que os homens são capazes de fazer. Eu nem fiz muita força para conduzi-los. Com 1 ano de meu ministério eu os fiz matar o meu corpo encarnado. Você não duraria nem 3 meses.
-Pois para seu tormento, eu farei a humanidade perdurar por mil anos, unicamente para ver seu retorno e desmascaramento.
-Estamos apostando? O que? Quanto?
-Se você ganhar, tem mais mil anos de reinado nesse mundo e pode até conseguir realizar seu sonho de ser o deus único. Mas se eu conseguir, aqueles que o auxiliaram sofrerão o mesmo castigo que o seu. O que vai ser? Deseja tanto a sua consagração a ponto de se expor ao escárnio?
-Sim, eu quero! A Casa dos Deuses será conforme a lei, perfeição e pureza, será a Nova Jerusalém do Deus Vivo!
Com uma mão, o Homem agarra a Cristo pela gola da túnica, o atirando para fora do palco, pela coxia da direita. O som ambiente muda para música metaleira, o fundo muda para uma silhueta de um laboratório e o Homem faz seu juramento.
-Em memória do Inominável, pela honra dos Primeiros e em defesa dos Patriarcas! Eu conduzirei os homens para que estes despertem sua natureza divina: a razão, a mente, a consciência!
Fim do ato 1, cena 1. Aplausos esfuziantes da platéia.

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